domingo, 26 de fevereiro de 2012

Bárbara Eugênia - Jornal de Bad



Não, amigo(a), para o bem ou para o mal, Bárbara Eugênia não é uma cantora/compositora “fofa” nem fez um disco idem. O mais fácil e confortável dos adjetivos da safra não lhe cabe, murmuro, digo, redundo, aposto, carimbo, cutuco: “Journal de BAD” vai além muito além, é disco grande.
Guardemos a tentação ou ideia de fofura no bolso ou no palato. Fichas na jukebox, moedas na radiola, prepare seu espírito flamejante para um trilha passional capaz de reacender, num curto-circuito, todos os corações de néon da cidade, esquinas, fachadas, motéis, lares, cabarés, tudo muito romântico.
“Bleeding my heart, oh no”, canta a moça, com a justa noção de que o amor cabe e estoura os gomos da pupila na levada psicodélica dos faróis. No acento do rock ou na chanson, principalmente nesta última, o amor cabe mais apertado ainda. Música cosmopolita contemporânea, maestro, devidamente matizada nas cores dos trópicos, com a Harley Davidson de Gainsbourg ao fundo, please, muito barulho nessa hora.
Não obrigatoriamente um(a) cantor(a) se parece mais verdadeiro(a) quando interpreta e masca os seus próprios vocábulos, caso da maioria das faixas deste disco. Bárbara Eugênia, carioca que vive em São Paulo cercada de gente do mundo todo, se parece sim, crença nas suas composições, como quem acorda, pega a trilha de sonhos e submete ao assobio do namoro novo ou afoga tudo na quentura da manteiga que derrete nos cafés das manhãs.
Na legítima fuga do amor que trava ou enferruja no calendário (“Agradecimento”) ou no medo do goleiro diante do pênalti (“A chave”), cuidado frágil – este lado para cima!-, aí vem a moça cronista do infortúnio e da ventura amorosa, cotidianos em desabridas letras.
“Journal de BAD” é também um disco novo com o melhor dos sintomas modernos da música que se faz hoje no Brasil e em São Paulo: o ajuntamento de artistas como Junior Boca (guitarra, violão, produção e direção musical), Dustan Gallas (baixo, piano, órgão, teclados, mixagem e produção) e Felipe Maia (bateria), só para citar um trio de frente.
Porque reparando ainda nos créditos, lá vem uma regravação de Fernando Catatau (“O Tempo”, Cidadão Instigado), uma composição de Junio Barreto, outra de Tatá Aeroplano, colaborações de Pupillo e Dengue (baixo e batera da Nação Zumbi), Otto na goela, Karina Buhr, Juliana R. Um mar de gente e de histórias.
Conheci o “Journal de BAD”, com este mesmo título, ainda como uma espécie de newsletter afetiva distribuída por Bárbara Eugênia aos amigos e conhecidos. Aí está a origem do batismo. É o que este CD reverbera com seus arrastões de epifanias e encantos.
Por Xico Sá
Download: Jornal de Bad

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Céu - Caravana Sereia Bloom (2012)



Arranjos inusitados, experiências sonoras e demais alquimias estéticas só fazem sentido se um disco, em sua essência, tiver canções bem construídas, belas e consistentes. É o que ocorre com o novo álbum de Céu, repleto de melodias, harmonias, ritmos, instrumentações e letras encantadores. Três anos após Vagarosa, a cantora e compositora paulistana volta a evoluir em Caravana Sereia Bloom, que transparece verdade e entrega. À primeira vista, o título pode soar como uma viagem de hippie chique. Mas não é: traduz com naturalidade o espírito do álbum, como se uma sereia, à frente de sua trupe, saísse por aí soltando a voz enfeitiçante e hipnótica.
À semelhança do que fazia nos trabalhos anteriores, Céu opta por registrar alguns temas-pílula, vinhetas efêmeras e bonitas, como Teju na Estrada, Sereia (dedicada a Rosa, sua filha com o músico Gui Amabis) e Fffree. A produção já não conta com Beto Villares, mas tem novamente Céu e Gui, além de Rica Amabis (na faixa Chegar em Mim, escrita por Jorge Du Peixe). O álbum ainda traz a excelente banda da cantora, que reúne nomes como Lucas Martins e Bruno Buarque. Entre os instrumentistas convidados, chamam a atenção Pupillo, Lúcio Maia, Dengue, Fernando Catatau, Curumin, Thiago França e Nahor Gomes. Também merecem destaque os coros etéreos do Negresko Sis, trio formado por Anelis Assumpção, Thalma de Freitas e pela própria Céu.
Odair José e Lupicínio Rodrigues
Outro ponto em comum com os dois primeiros CDs são as regravações. A intérprete já havia dado sua cara para Concrete Jungle (Bob Marley) e Rosa, Menina Rosa (Jorge Ben Jor). Agora, imprime sua assinatura em You Won’t Regret It (Lloyd Robinson e Glen Brown) e Palhaço (Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes), que gravou acompanhada por seu pai, Edgard Poças, no violão e no assovio.
Como compositora, ela continua mostrando habilidade. Isso se evidencia em pelo menos quatro canções: Amor de Antigos (setentista e singela), Retrovisor (moderna e, ao mesmo tempo, lupiciniana),Baile de Ilusão (uma joia com ares de Odair José) e Asfalto e Sal (que exibe versos arrebatadores, como “eu vou lhe conservar no sal do meu mar”).
O sambista portelense Argemiro Patrocínio costumava dizer que, em “panela em que muito se mexe, a comida estraga”. Caravana Sereia Bloom segue a receita habitual, com temas simples, burilados na medida certa. Que Céu não demore mais três anos para compartilhar suas belezas.


Lucas Nobile é jornalista.


Download:Caravana Sereia Bloom