domingo, 19 de agosto de 2012

A Tribute to Caetano Veloso (2012)




Por: Cleber Facchi



Não há expressão que melhor defina a obra de Caetano Veloso do que “diversidade”. Em mais de quarenta anos de carreira, a extensa discografia do cantor e compositor baiano já mergulhou nas cores da psicodelia, provou dos temperos latinos, passeou pelo samba em suas muitas formas até se acomodar nos ruídos e distorções típicas do novo rock. Com uma trajetória pontuada por acertos e erros bem delimitados – A Foreign Sound (2004) e a parceira com Maria Gadú em 2011 ainda não fazem o menor sentido -, o cantor alcança os 70 anos de vida mantendo uma sobriedade e uma produção rara, recebendo pelas mãos de jovens (e alguns velhos) representantes da música mundial um bem elaborado presente de aniversário: A Tribute to Caetano Veloso (2012, Universal).

Com faixas que passeiam pelos mais distintos aspectos da obra de Caetano, o registro acumula ao longo de 16 composições a mesma diversidade que tanto define a trajetória do músico. Entre músicas que percorrem clássicos como Transa (1972), Araçá Azul (1972) e Cinema Transcedental (1979), artistas vindos de diferentes gerações, propostas e referências ampliam os experimentos e caminhos já percorridos pelo baiano, pintando com novidade clássicos e algumas canções que sustentam o Lado B do artista. Surgem assim criações memoráveis, como o acabamento assertivo dado por Céu e os parceiros de banda a Eclipse Oculto ou a belíssima transformação de Da maior importância (eternizada por Gal Costa) na voz agridoce de Tulipa Ruiz.

Há quem possa atestar que parte do acerto que define o registro tributo está no vasto (e riquíssimo) material deixado por Veloso ao longo dessas quatro décadas de interruptas produções. Entretanto, mais do que reviver clássicos incontestáveis da música nacional, parte fundamental do que engrandece o álbum está na maneira sutil como alguns artistas revivem porções esquecidas e algumas até não descobertas da obra do baiano. Borbulham assim faixas como Michelangelo Antonioni na interpretação doce de Beck, The Empty Boat em acabamento suntuoso na parceria de Chrissie Hynde e o trio +2, além de Quem Me Dera, que substitui o encontro de Gal e Caetano por Rodrigo Amarante e Devendra Banhart.



Ainda que concentre uma boa soma de acertos e reformulações que por vezes parecem maiores do que as versões originais, não há como fechar os olhos (e ouvidos) para alguns claros desarranjos que permeiam a coletânea. Seja pela inclusão desnecessária e deveras convencional de Peter Gast (na voz de Seu Jorge) ou pela reformulação pouco atrativa de Trilhos Urbanos (na voz de Luísa Maita), o tributo perde um pouco do valor quando deixa de lado a proposta experimental da obra de Veloso para incorporar trechos óbvios. Algo que a versão deveras dramática (e penosa) de Força estranha (nos vocais de Miguel Poveda) exemplifica como o ponto mais cansativo do registro.

A quantidade mais do que aceitável de acertos, entretanto, eleva a boa execução do trabalho, que transforma composições irretocáveis como You don’t know me e London London em músicas renovadas e naturalmente atrativas às novas gerações. Enquanto a primeira (assumida pelos britânicos do The Magic Numbers) traduz com guitarras leves e vocais dicotômicos uma das composições mais icônicas de toda a história de Veloso, a segunda encontra nas invenções dos veteranos dos Mutantes uma nova e ainda mais dolorosa interpretação. Sobra até para algumas surpresas, como a bem elaborada versão para Fora da ordem (por Jorge Drexler) e Araçá Azul (cantada por Mariana Aydar), que surge um pouco mais extensa do que na versão original

Curioso perceber que mesmo dentro de uma obra vasta como a de Caetano Veloso, a seleção de faixas que preenche o disco ecoa de forma satisfatória, como se o trabalho pontuasse todos os variados aspectos, tendências e etapas da extensa carreira do artista com primor e um resultado naturalmente atrativo. Concentrado nos momentos de maior relevância da trajetória do baiano (a década de 1970), o álbum tributo estabelece uma relação intensa entre o passado e presente, prova do resultado atemporal e da poesia (aqui bem escolhida) de Veloso, que ganha o melhor presente que um artista do porte dele poderia recebe

Download: A Tribute to Caetano Veloso

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Orquestra Contemporânea de Olinda - Pra Ficar (2012)




A Orquestra Contemporânea de Olinda é o símbolo da intensidade e inventividade que o Brasil e o Mundo aprenderam a admirar na música pernambucana. Idealizada pelo Gilú (percussionista) a Orquestra é a reunião de alguns dos melhores músicos pernambucanos, com trabalhos conhecidos em todo o Mundo, que não se contentam com a formação tradicional de uma banda, com baixo, guitarra e bateria, com a junção de músicos da Orquestra de frevo com mais de 50 anos de existência.

A primeira metade responde pela base criativa: Gilú, Hugo Gila, Tiné, Maciel Salú, Rapha B. e Juliano Holanda quem vem afinada de trabalhos anteriores como Bonsucesso Samba Clube, Academia da Berlinda, Variant, DJ Dolores e Orchestra Santa Massa e Terno do Terreiro entre outros vários projetos. A outra metade vem do Grêmio Musical Henrique Dias, comandado pelo Maestro Ivan do Espírito Santo (flauta, sax alto, barítono e tenor), Roque Netto (trompete), Adriano Ferreia (trombone) e Alex Santana (Tuba), músicos formados pela primeira escola profissionalizante de músicos de Olinda sem fins lucrativos que iniciou suas atividades em 1954 e realiza, até hoje, programas educacionais, culturais e de desenvolvimento comunitário na cidade Alta de Olinda/PE. Daí por diante, foi questão de poucos meses para a "big band" olindense se tornar conhecida do público e recomendada pela crítica mundial. Entre shows em todo o Brasil a banda preparou um repertório que faz parte do seu primeiro álbum, lançado em 2008 e distribuído pela Som Livre (Orquestra Contemporânea de Olinda - 2008, Som Livre.

Entre grooves latinos, afro beats e ritmos pernambucanos, a Orquestra Contemporânea de Olinda construiu identidade própria, concisa, bem definida. Mérito compartilhado por um elenco de dez músicos com diferentes origens e a mesma intenção de fazer uma música nova, em todos os sentidos. Desde releituras de clássicos em ambientes vanguardistas até a doçura de linhas melódicas primorosas, pontuadas por arranjos de uma orquestra de sopro incrivelmente "encaixada" no som...
Idealizador da Orquestra, o percussionista olindense Gilú vem desenvolvendo um trabalho com identidade própria e bem definida, em palcos brasileiros e estrangeiros. Em pouco tempo de carreira, tocou com: Naná Vasconcelos, Erasto Vasconcelos, Mundo Livre, Otto, Silvério Pessoa, entre outros. Gravou CD com Chão e Chinelo, Bonsucesso Samba Clube e Renata Rosa, tendo viajado com esta última pela Europa. Na Europa, participou do projeto Trilogia do Carnaval, do pianista Marcelo Bratk, solista da sinfônica de Londres. Foi membro fundador dos grupos A Roda (com Gabriel Melo e Yuri Habib) e Academia da Berlinda

O cantor e compositor Tiné é natural de Arcoverde, terra do grupo Cordel do Fogo Encantado, e do Samba de Coco Raízes de Arcoverde, duas influências claramente assumidas em seu trabalho. No Recife, é conhecido por seu trabalho no grupo Academia da Berlinda. Com Maciel Salú, participou do projeto Terno do Terreiro. Além disso, em 2004 Tiné lançou o disco solo, Segura o Cordão, com composições próprias e de parceiros, e produção musical e arranjos do violeiro Caçapa. Uma das faixas, a canção Cobrinha, foi incluída na coletânea What's Happening in Pernambuco lançada nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop, de David Byrne. Algumas músicas estão no endereço www.myspace.com/seguraocordao

Tendo crescido em contato com mestres da cultura popular, o rabequeiro, cantor e compositor Maciel Salú tem uma herança poético-musical privilegiada. Sua infância foi enriquecida pelos ritmos do maracatu rural, cavalo marinho, ciranda e outros, cultivados em sua família por seu avô João Salú, e por seu pai, Mestre Salustiano. Há 10 anos, com o grupo Chão e Chinelo, participou de festivais nacionais e internacionais, como em Nantes, na França. Posteriormente, se integrou à Orquestra Santa Massa, liderada por DJ Dolores, e aplaudida no Free Jazz, Abril pro Rock, festival Lincoln Center, em Nova York e na European Tour em mais nove países. Em 2004, iniciou trabalho solo, com o disco A pisada sucesso de público e crítica. O segundo, Na Luz do Carbureto, foi lançado em 2006

Juliano Ferreira Holanda é um instrumentista, compositor e produtor musical bastante requisitado. Tem trabalhos com guitarra, baixo, violão, violão de sete cordas, viola, viola de 10 cordas, viola de cocho, bandolim e baixolão. Nos últimos anos, participou, compôs ou produziu em uma extensa série de projetos e bandas, como: Azabumba, Forró Rabecado, Maciel Salú e o Terno de Terreiro, Alessandra Leão, Erasto Vasconcelos, Zeh Rocha, Negroove, Dona Cila e seus Pupilos, Isidro, Tonino Arcoverde, Geraldo Maia, Treminhão, Amoenda, Folia de Santo, e Mio Mazda meets Deep Samba

Há muitos anos Hugo Gila tem sido baixista e tecladista na cena musical olindense. Tocou com Otto, Kaya Na Real, Songo, Variant TL, Zé Cafofinho e suas Correntes, Guardaloop, China (projeto solo), Erasto Vasconcelos e Seu Gaspar da Gaita. Atualmente, é um dos integrantes da banda Academia da Berlinda

Parceiro de longa data de Hugo Gila e Gilú, Raphael Beltrão já foi baterista da Songo, Variant TL e China. Entre outros, participou da gravação dos CDs dos grupos Bonsucesso Samba Clube, Geraldo Azevedo, Zé Cafofinho e suas Correntes e Variant (dividindo a bateria com Pupillo da Nação Zumbi) entre outras bandas. Com ele, se fecha o núcleo baixo-percussão-bateria-guitarra, ou seja, o "coração" da Orquestra Contemporânea de Olinda.

Maestro Ivan Do Espírito Santo é saxofonista profissional desde 1º de dezembro de 1982, trabalhando em diversos segmentos da profissão, tais como: Orquestra de Frevo do Maestro DUDA (de 1982 a 1990, quando em 1983, apresentou-se na Feira das Nações na cidade Miami-Flórida), Orquestra Sinfônica do Recife (convidado para solo), Banda Sinfônica da Cidade do Recife (convidado para solo), gravação de diversos trabalhos com artistas locais e nacionais, entre eles: CD Próprio Os Sons do Espírito Santo (Gravadora Manancial), Banda LA PAZ, Claudionor Germano (Homenagem a CAPIBA e Marchas Rancho), Isabel Gouveia (Fidelidade), Davi Wanderley (Livre de verdade), Maestro Nunes (Homenagem ao criador), Patrícia Solis (Camucais), Grêmio Musical Henrique Dias (O tema é FREVO), Banda de música da Base Aérea do Recife, Cauby Peixoto (20 Super Sucessos), Alceu Valença (Asas da América), Nação Zumbi (Nascedouro), Karina BHÜR, Orquestra Contemporânea de Olinda, Orquestra Popular do Recife (E o frevo continua), KATE BENTLEY (USA), Lia de Itamaracá (Ciranda de ritmos), etc..

Atuou em espetáculos com artistas de diversos estilos, tais como: FESTIVAL DE FREVO E MARACATU - FREVANÇA (REDE GLOBO), RECIFREVO, RECIFE BANDA SHOW, PETRÚCIO AMORIM, ALTEMAR DUTRA Jr, PERI RIBEIRO, FRANCIS HIME, RAUL DE SOUSA, CARLINHOS FÉLIX, HEBE CAMARGO, NELSON GONÇALVES, ÂNGELA MARIA, REGINALDO ROSSI, ALCEU VALENÇA, ANDRÉ RIO, GONZAGA LEAL (no show Pra Sempre Sonhar), CHORANDO EM PE (com apresentações em todo Nordeste do Brasil, bem como na cidade de Buenos Aires – ARGENTINA), MARIA CREUSA, etc. Atualmente é o Maestro da Banda de música do Grêmio Musical Henrique Dias, e ministra no Curso de Teoria Musical, Solfejo, Saxofone e Flauta-doce, e Flauta transversal; atua como solista na Orquestra Sinfônica Jovem e na Orquestra do Conservatório Pernambucano de Música; é arranjador e saxofonista da Orquestra Contemporânea de Olinda, da qual foi indicado ao Prêmio TIM FESTIVAL 2009 e ao LATIN GRAMMY 2009. E na Força Aérea, é saxofonista e arranjador da Banda de Música da Base Aérea do Recife.




Download: Pra Ficar

Clip do primeiro disco:

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Os Sertões - A Idade Dos Metais (2012)





Os caminhos da música podem ser traçados de diferentes maneiras.
Às vezes basta uma configuração diferente de elementos para que tudo ganhe um perfil novo: sonoridades, @mbres, e a par@r daí as próprias composições.
Formação instrumental determina caminhos mas também os limita.
Uma formação padrão parece induzir tudo para caminhos já abertos e desbravados, onde se pode avançar à vontade por lugares onde todo
mundo já passou. Já uma formação inusitada enfrenta pequenas dúvidas o tempo todo, e pede milhares de pequenas soluções, pequenas inven@vidades.
A banda Os Sertões parte de uma configuração básica de formato pouco comum. O nome remete ao sertão, de onde o ouvinte esperaria surgir uma sonoridade de viola e rabeca, ou de sanfona e pandeiro. Mas a formação tem violão+guitarra, baixo, bateria e trombone (+sopros). O som resulta num som urbano, alternadamente tenso e relaxado. Um som que evoca a febre urbana do trânsito, dos milhões de máquinas funcionando ao mesmo tempo. Ou então o silêncio da noite, quando a
energia se concentra nos lugares onde a vida noturna ferve.
O sertão é a origem remota desses músicos que trazem a memória cultural do Nordeste em seu DNA, por mais que sua sensibilidade musical tenha sido aprimorada através da variedade de recursos high-­ tech de hoje. O instrumento pode ser importado ou recém-­‐inventado, mas os dedos que o manipulam têm sangue sertanejo e mil anos de História.
O álbum
Clayton Barros, um dos fundadores da banda Cordel do Fogo Encantado (2001-­‐2010), fazia com seu violão a ponte harmônica entre a poesia de Lirinha e a base de percussão dos demais integrantes. O sertão pernambucano de onde vieram eles não era um sertão está@co, era um sertão plugado à cidade, pulsante de informação nova, uma poesia de cordel eletrificada pelo rock-­‐and-­‐roll.
Daí que o álbum A Idade dos Metais seja um entrelaçamento dessa energia primi@va com a tensão massacrante da cidade. Uma colagem em que os elementos de uma infância simples, junto à natureza (“Meu pé de manga adora banho de chuva / meu pé de uva se não chover se zanga”, em “Da infância”) convivem com a pressão frené@ca de uma civilização com pressa, em “Do Zero” ou “Alamedas”.
Trilhas sonoras de um passeio de uma câmara cinematográfica, de carro, às cegas, pela cidade – sen@ndo a pulsação de milhões de vidas por trás de cada fragmento de imagem captado através das lentes. Flashes de uma sensibilidade urbana capaz de chamar a mulher amada de“doida de pedra” e de conciliar a noite sem fim de “A Pedra” (insônia na boemia ounum  estúdio, com par@cipação do Ojo) com a sensualidade de “Vem cá meu bem”.
Sensibilidade lpica de músicos, de uma tribo que se sente à vontade na cidade e na madrugada, e para quem algumas das coisas mais importantes da vida acontecem entre a meia-­‐noite e os primeiros raios do sol.
Os Sertões é composta pelos músicos: Clayton Barros (vocal, violão,guitarra), Deco Trombone, da banda Ska Maria Pastora (sopro), Rafael Duarte, do grupo Rivotrill (vocal, baixo) e Perna, da banda Radistae (bateria). O repertório é baseado em composições próprias, além de interpretações de Zé Ramalho (“Galope Rasante”) e Les Baxter (“Wheels”).

Braulio Tavares