terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Graxa - Molho (2013)



Angelo Souza resolveu se cercar de canções cronicamente confessionais para estrear com o disco Molho. Sob a alcunha de Graxa, rodeado de amigos-músicos, entre eles D mingus – que trabalhou na co-produção do álbum juntamente com o próprio Graxa –, fez da confissão um método de composição que, em medidas desproporcionais, correria o risco de soar clichê e ultrapassado. Não foi o caso. A habilidade de Graxa em traduzir os pequenos desastres do dia a dia em música fez das letras do disco recortes irônicos da vida. “Vou ter que decidir se eu bebo ou seu trago/ E como eu já to embriagado eu decido comprar”, sussurra a voz e teclas da faixa de abertura “Acho que nesse domingo eu vou ficar triste”.

O álbum é dividido em Lado A e B, com a faixa título “Molho” recortando esses dois lados. A música não chega há ter um minuto sequer, mas diz muito sobre o humor presente nas letras de Graxa, e serve muito bem para representar a mistura de rock e blues que passeia pela maioria dos arranjos. “Tendo no espelho saudades do meu cabelo” e “Um bando de crocodilos” são outros destaques que mimetizam várias possibilidades estéticas nas composições do álbum. A cantora Isaar, por exemplo, regravou “Tudo em volta de mim vira um vão” para o seu novo disco, a ser lançado brevemente. Assim, as canções de Graxa têm aberturas que permitem a outros artistas se apropriarem delas. Molho, de forma surpreendente, consegue soar antigo sem ser anacrônico. As texturas alcançadas durante as gravações, bem como as participações especiais, assim como a de Aninha Martins em “Doutor, por favor” e “Que resignação” deram um colorido especial para as vozes de Graxa, presente nas crônicas que ele destila, nos assuntos prosaicos em que aborda. Sem perceber, entre um gole e outro, fez um disco recheado de boas canções e alguns sorrisos de estórias.

por Carlos Gomes

Download:  Molho


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Juçara Marçal - Encarnado (2014)




Por Romulo Fróes

Juçara Marçal está longe de ser uma estreante. Já são mais de vinte anos de carreira iniciada com o grupo vocal Vésper, com quem lançou quatro discos, Flor D’Elis (1998), Noel Adoniran -180 Anos de Samba (2002), Ser Tão Paulista (2004) e Vésper na Lida (2013). Com o grupo A BARCA, Juçara lançou dois discos, Turista Aprendiz (2000) e Baião de Princesas (2002), além de participar do importante trabalho de pesquisa do grupo realizado em nove estados brasileiros entre 2004 e 2005 e que resultou no registro em áudio e vídeo de mais de trinta mestres de cultura tradicional, presentes nas caixas Trilha, Toada e Trupé e Coleção Turista Aprendiz. Ao lado de Kiko Dinucci, iniciou uma parceria que há alguns anos investiga e desenvolve um trabalho a partir das tradições afro-brasileiras. Dessa parceria já foram lançados Padê (2007) e os dois discos com o grupo Metá Metá (que além de Juçara e Kiko tem em sua formação o saxofonista Thiago França), são eles, Metá Metá (2011) e Metal Metal (2012). Depois dessa extensa carreira discográfica, Juçara Marçal se aventura agora em seu primeiro trabalho solo e o faz de maneira surpreendente. Encarnado (2014), mais do que um apanhado de sua longa trajetória artística, é quase uma nova estreia, apontando em uma direção arriscada e inesperada, inimaginável até para aqueles que acompanharam seu longo percurso até aqui.

Em sua definição espiritual, encarnado é o espírito que ocupa temporariamente um corpo humano. Encarnado também significa torna-se carne. Não por acaso, Encarnado, o disco de Juçara Marçal, tem seu repertório todo marcado pelo tema da morte. No entanto, mais que finitude, parece indicar uma busca por renovação, renascimento, um desejo por um "outro corpo", uma "nova carne". Logo na abertura do disco, pelos versos de O Velho Amarelo (Rodrigo Campos), Juçara reivindica: "Não diga que estamos morrendo, hoje não". Se a morte é inevitável, que seja encarada sem medo: "Vai, menina dos meus olhos, penetre entre os olhos, não há piedade, é só o fim, vai!". E que seja permitido escolher a hora e momento certos: "Quero morrer num dia breve, quero morrer num dia azul, quero morrer na América do Sul". O tema da morte vai aparecer de muitas maneiras ao longo do disco; de forma vingativa, em Damião (Douglas Germano): "Dá neles, Damião! Dá sem dó nem piedade e agradece a bondade e o cuidado de quem te matou"; pela chave romântica, em Queimando a Língua (Romulo Fróes / Alice Coutinho): "Não enxergo final, interrompo o tempo aqui em você"; e até mesmo em sua própria representação, em A Velha Capa Preta (Siba): "E a morte anda no mundo vestindo mortalha escura e procurando a criatura que espera condenação, quando ela encontra um cristão sem vontade de morrer".

Em Ciranda do Aborto (Kiko Dinucci) o tema aparece de maneira desconcertante, mais explícito, violento. Violência em nada apaziguada pela ambiguidade de seu título. Ciranda do Aborto já começa na faixa anterior Odoya (Juçara Marçal), uma vinheta que lhe serve quase como introdução. Mais do que introdução, serve de oração, uma benção à mãe Odoya: "Agô Yabá, bença mãe" e vai servir também como um pedido de ajuda para atravessar o momento tão doloroso descrito a seguir: "Passa na carne a navalha, se banha de sangue, sorri ao chorar, cobre o amor na mortalha pra ele não acordar, sente no fel deste beijo, o agouro da morte a se revelar". A letra prossegue, ganhando tensão: "vai despedaçado, vem meu bem querer, vem aqui pra fora, vem me conhecer" (aqui vale um adendo, não me lembro de outra vez na canção brasileira o tão repetido verso "meu bem querer", ter sido usado de modo tão agressivo e contraditório). O arranjo acompanha a tensão da letra e se desenvolve em um crescendo. Juçara cresce com ele. Amplificada pelo cavaquinho hitchcockiano de Rodrigo Campos, sua voz, qual lâmina, rasga os versos agudos da estranha ciranda de Kiko: "A ferida se abriu, nunca mais estancou, pra você se espalhar laceado, mas o chão te engoliu, toda a lida findou, pra você descansar no meu braço aos pedaços". Após um final caótico, que traduz musicalmente o horror do assunto tratado na canção, Juçara se desmancha, denunciando sua entrega à canção num suspiro invulgar.

Como suportar a audição de um disco construído a partir de tema tão profundo, quanto desagradável? A resposta está na voz de Juçara Marçal. Sob seu canto se revelam belezas escondidas e insuspeitas. E ele não cessa, um instante sequer. Juçara canta, mesmo quando não está cantando. Canta quando fala, na fala itamariana de E o Quico (Itamar Assumpção). Canta quando grita, o grito pós-tropicalista de Não Tenha Ódio no Verão (Tom Zé). Canta a "voz" dos (poucos) instrumentos presentes no disco, o sax e o pocket piano de Thiago França, a rabeca de Thomas Rohrer, mas principalmente, Juçara canta as guitarras de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos. A polifonia rítmica e as melodias fraturadas (des)construídas por Kiko e Rodrigo, que desestabilizam a harmonia, fazendo cambalear a canção, encontraram no canto de Juçara o elemento catalisador perfeito na linguagem musical inovadora e original que vêm desenvolvendo em dupla há algum tempo, especialmente com o Passo Torto, grupo do qual fazem parte ainda, Marcelo Cabral e Romulo Fróes. De um lado, os ruídos, a sujeira, os riffs de influência punk de Kiko. De outro, as melodias elegantes, precisas, fruto da formação violonística de Rodrigo. Essa junção de universos musicais tão distantes, aliada à profunda influência do samba nos trabalhos individuais de cada um, vem construindo um vocabulário desconhecido, novo na música brasileira. Pela voz de Juçara, as conquistas de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos atingem um outro patamar. Lembro de Torquato Neto e sua célebre fala: "Um poeta não se faz com versos, é o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela." Seguindo a cartilha de Torquato, ao discorrer sobre a morte, Juçara nunca esteve tão viva. Ao se reinventar, não só abriu novas possibilidades a si mesma, mas à própria música brasileira. Seu disco é lançado em um época em que a canção popular perdeu há tempos a importância na formação cultural do nosso país. Talvez seja muito menos ouvido e discutido do que de fato Juçara e o Brasil mereciam. Mas servirá desde já e por muito tempo ainda, de antídoto para o discurso nostálgico e paralisante dos profetas do fim da canção. Estes deveriam prestar atenção ao que diz em alto e bom som Juçara Marçal: Não diga que estamos morrendo. Hoje não!

Download: Encarnado



sábado, 15 de fevereiro de 2014

Isaar - Todo Calor (2014)



Recife é festa, é folia e também melancolia. Recife é tristeza e é desigualdade na diversidade. Recife é preto, branco, moreno e galego. Recife é beleza e marginalidade. Recife é tragédia e alegria. Recife é, como o pessoal do manguebeat expôs, pop, rock, maracatu, eletrônica, frevo, consciência social e amor (romântico e universal). Recife é Todo calor, novo álbum de Isaar. O disco será disponibilizado para audição e download gratuito, a partir deste sábado (15), no site www.isaar.com.br. A versão física só estará nas lojas depois do carnaval.

Inspirada por andanças e vivências pela cidade e apoiada por uma banda criativa e segura, a cantora e compositora concebeu um álbum que sintetiza a multiplicidade local. “Ando muito pelo Recife. Gosto de passar pelos mercados São José e da Boa Vista, do Centro. Aquilo é, no dia a dia, muito vivo e muito rico”, descreve Isaar.

Nas 11 faixas do disco, a artista mostra uma bem temperada reunião de sons da cultura popular com outros estilos do mundo. Em momentos nos quais as vocalizações lembram as de cantoras de coco, ciranda ou de toadas de maracatu, a banda vai de rock, pop ou reggae de maneira equilibrada e enxuta. “Me falam que é o meu disco mais urbano. Porém o ‘urbano’ do Recife é bem diverso, né? São muitos sons que se ouvem pela cidade”, explica.

Todo calor foi produzido por Bernardo Vieira e gravado no Fábrica Estúdios, com recursos da própria artista. As primeiras composições começaram a surgir em meados de 2012. No entanto, foram interrompidas em setembro daquele ano por conta da trágica morte, provavelmente provocada por uma bala perdida, de Lito Viana, seu baixista, amigo e braço de apoio musical. “Resolvi dar uma parada e dissolver a banda que me acompanhava na época. Precisava de um tempo para refletir”, rememora.

Lito deixou diversas harmonias prontas no violão, o que facilitou o trabalho da nova banda reunida por Isaar para atuar no novo disco. “Mas eu deixei o pessoal bem à vontade para trabalhar”, reforça Isaar. O time que gravou Todo calor e vem tocando com ela ao vivo é composto por Gabriel Melo (guitarra), Rama Om (baixo), Do Jarro (bateria) e Deco do Trombone.

Download: Todo Calor


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Charlie Does Surf - A Tribute to The Clash (2004)



Tributo reunindo diversas bandas de surf music, de várias partes do mundo,  fazendo versões Bacanas com "B" maiúsculo.

Tracks:

01-Charlie Don’t Surf - Pollo Del Mar
02-What’s My Name - Estrume’n’tal
03-Rudie Can’t Fail - Cocktail Preachers
04-Atom Tan - The Silver Hawks
05-Garageland - The Glasgow Tiki Shakers
06-Safe European Home - The Bombers/Vivisectors
07-White Riot - Kelp
08-Janie Jones - Crime Factor Zero
09-Straight to Hell - CHUM
10-London’s Burning - Crime Factor Zero
11-Spanish Bombs - RNA
12-Train in Vain - Susan & the SurfTones
13-Stay Free - The Thurston Lava Tube
14-Death or Glory - The Nematoads
15-Clampdown - Urban Surf Kings
16-Complete Control - The Lava Rats
17-Guns of Brixton - The Anacondas
18-London Calling - The Pyronauts

Download: Charlie Does Surf



Créditos: http://cancoesparameusamigossurdos.tumblr.com/

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Trummer Super Sub América (2014)



Ao cantar “Salve a América do Sul”, o olindense Fabio Trummer, no imperativo, conclama e sauda o continente explorado anos a fio pelos impérios do norte. As filigranas da letra se confundem com a crueza de alta fidelidade da canção gravada com o clássico power trio punk: guitarra, baixo e bateria. Como cartão de visitas, a faixa abre o primeiro disco solo do vocalista da banda Eddie, “Super Sub América”.
Esse despretensioso grito de guerra latino-americano pode soar como uma releitura do “lixo ocidental” cantado por Milton Nascimento. Não menos mordaz que a visão do mineiro, a inspiração para Trummer se estende pelo álbum. “O Super Sub América vem do Eduardo Galeano”, diz o músico. Para o escritor uruguaio, o continente, sucessivamente subjugado por países mais ricos, é visto mundo afora como uma América de segunda classe.
A corrosão das letras consome as bases certeiras de Luca Bori e Diego Reis, baixista e baterista do Vivendo do Ócio. Rebentos do selo Sub-Pop como Pixies e Nirvana fazem parte do panteão de referências de Trummer, especialmente nesse disco. “Esse disco tem um sabor de anos 80”, conta o artista, um punk de meia idade como ele mesmo explica. “Tem a coisa do faça-você-mesmo e eu aprendi a tocar em banda, mas agora tenho 25 anos de experiência.”
Toda essa carreira foi dedicada à banda Eddie. O grupo, surgido no caldeirão do manguebeat, sempre correu por fora das misturas de maracatu, embolada, hip hop e música eletrônica - embora Trummer reconheça a natural influência do meio em que vive. “Continuamos até hoje porque criamos o nosso mercado”, diz ele, ainda vocalista da banda que se mantem ativa mesmo com seu projeto solo.
O disco “Super Sub América” tem participações de Daniel Ganjaman e foi produzido por Daniel Bózio com capa de Mozart Fernandes. Abaixo, ele pode ser ouvido em primeira mão. A seguir, Fabio Trummer fala sobre as inspirações para seu novo trabalho, a produção do álbum, cena pós-manguebeat, América do Sul e até rolezinho. “Isso mostra o que é o Brasil”, sentencia o músico ainda punk, ainda americano.