domingo, 27 de abril de 2014

Fino Coletivo - Massagueira (2014)



O Fino Continua o Fino
Por Marcelo Janot

Massagueira é uma pequena vila de pescadores a 15 km de Maceió, um oásis natural que nos últimos anos se tornou um polo gastronômico. O tempero musical alagoano se juntou com ingredientes cariocas quando o Fino Coletivo foi formado no Rio de Janeiro, em 2005. E moldou a sonoridade da banda, recebida com elogios e prêmios em seu disco de estreia, “Fino Coletivo”, de 2007, e no seguinte, “Copacabana”, de 2010. Natural, portanto, que Adriano Siri, Alvinho Cabral, Alvinho Lancellotti, Daniel Medeiros e Rodrigo Scofield façam a ponte entre Copacabana e Massagueira em seu novo álbum.

Definir o som do Fino não é fácil, tamanha a gama de ritmos e estilos reprocessados em suas músicas. “Se tudo tivesse uma estética pra se seguir/Me explique então como iríamos crescer”, canta Siri em “Como é que a gente se ajeita”, clamando pela evolução através da simplicidade que provoca um “desconcerto musical”, enquanto escutamos o “improviso sonoro” dos efeitos de MPC de Domenico Lancellotti. E, de fato, a simplicidade se impõe cada vez mais como uma marca registrada do grupo, que optou por, pela primeira vez, gravar todas as bases ao vivo, aproveitando o entrosamento dos anos na estrada.

Trocando as bases eletrônicas pelo reforço na percussão de Zero e o peso extra dos metais de Diogo Gomes e Gilmar Ferreira, “Massagueira” segue na levada pop da banda. Os refrões cantados em coro mostram a força das canções em faixas como “Tudo Fica Lindo”, dedicada aos barrigudos e calvos que não colocam o lixo pra fora e ainda assim são chamados de “meninos bonitos” graças à mágica relativizadora do amor.

O amor também vem embalado pelo timbre de voz mais grave de Alvinho Cabral nas baladas “Nós” (em dueto com Luana Carvalho) e “De Maré”. Se o Fino Coletivo era o único grupo do mundo com dois Alvinhos em sua formação, agora é o único com dois Alvinhos que cantam. E com Siri completando o time de vocalistas/compositores, o repertório só tem a ganhar com essa diversidade. “Massagueira” abre com a energia da guitarra de Pedro Costa e Davi Moraes e dos sopros em “Is Very Good Jan” (que cita o refrão de “Nega”, do lendário primeiro disco dos Baianos e Novos Caetanos) e fecha com a viola caipira tocada por Siri que dita o ritmo de “Vou que vou”. Entre uma e outra, tem clima de gafieira na homenagem à santa doméstica que criou Daniel Medeiros, que foi pro céu antes que o disco ficasse pronto (“Iracema”) e até um afoxé que desemboca em ciranda na inspirada parceria de Alvinho com seu pai Ivor Lancellotti, “Porvir”.

Dez composições inéditas que reafirmam o lugar deles no primeiro time da nova geração da MPB que prefere o risco ao formato fácil de covers, tributos e acústicos. Enquanto o visual e os sabores lá da vila de Massagueira inspiram uma deliciosa preguiça, O Fino Coletivo trabalha com afinco se ampliando/ “sampleando” culturalmente. Por isso eles são o fino.

Março/2014


Download: Massagueira



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Juvenil Silva - Desapego (2013)



Por Hugo Montarroyos

A vida é mesmo cheia de surpresas. Quem diria que aquele moleque mod meio chato dos Canivetes (banda que fez certo barulho no underground recifense da década passada)  fosse se transformar, anos mais tarde, em um artista completo? É o que atesta este “Desapego”, estreia solo de Juvenil Silva. Como quem brinca com o tempo, sua faixa de encerramento, “De Volta para o Futuro Em Recife”, sintetiza toda a concepção estética do álbum, que tem gosto, cheiro e cor de final dos anos 60, sem, no entanto, abrir mão de ser atual. Seja no rockabilly de “Mixturado”, na manhosa “Pomba Gira Violeta” (que parece fundir Mutantes com Jorge Ben Jor) ou na instrumental “Tire o Peixe da Gaiola” ( coisa de quem ouviu muito Santana), Juvenil não perde a mão em um segundo sequer. São todas canções que dão vontade de apertar “repeat” após a execução.

A banda é extremamente afiada, e soa como se estivesse se divertindo em qualquer quintal ou garagem da vida. É psicodélico sem ser chato. E, ao mesmo tempo, despretensioso sem soar simplista. As letras são um achado, como as de “Desapego” e “Se Ela Nunca…”. O que mais impressiona é a capacidade de Juvenil de percorrer por diversos territórios da música (tropicália, blues, rock rural, Novos Baianos, Raul Seixas, Bob Dylan) sem perder a coesão. Tudo está no seu devido lugar. É daqueles álbuns difíceis de citar um destaque. Deram até um nome para este tipo de trabalho: obra. Se “Desapego” não é uma obra-prima, é um disco que deve ser entendido pelo todo, e não apenas  pelas partes.

E é assim, juntando as partes de tudo que vê, ouve e respira, que Juvenil concebe um trabalho extremamente inspirado, verdadeira delicadeza bruta de quem deixou de ser apenas um roqueiro inquieto para se tornar um artista de alto calibre. Tom Zé ficaria orgulhoso.

Download: Desapego

Spok Frevo Orquestra – Ninho de Vespa (2014)




O tradicional e secular ritmo do frevo, aclamado por multidões e patrimônio cultural do Brasil, é repaginado pela SpokFrevo Orquestra com uma pegada jazzística e tons contemporâneos, num impressionante resultado musical. Sob a batuta de Inaldo Cavalcante de Albuquerque, o maestro Spok – saxofonista, arranjador e diretor musical – a big band pernambucana de 17 músicos lança seu segundo álbum, o inédito Ninho de Vespa. O projeto foi contemplado na seleção pública do Petrobras Cultural.

O pontapé inicial da turnê  do disco acontece no Recife, em show no dia 22/11, às 21h, no Teatro Luiz Mendonça. Assim, o público de sua cidade-natal vive a experiência de ver de perto os músicos que carregam consigo o estandarte da cultura do Estado.  A entrada é franca.

O disco, Ninho de Vespa, chega ao público como uma maturação da estreia com Passo de Anjo (2004), e traduz, como o título suscita, uma complexa comunhão de gêneros musicais brasileiros não eruditos aludidos para plateias de concerto, indo além da música para fazer dançar, tão associada aos sons carnavalescos. A SFO, com seus naipes de saxofones, trombones, trompetes, além de guitarra, contrabaixo, bateria e percussão, vai ultrapassando barreiras sonoras por onde passa.

“A concepção para o álbum começou quando vários compositores espontaneamente enxergaram no trabalho da SpokFrevo Orquestra a possibilidade de ver gravado numa roupagem interessante alguns frevos que criaram, nessa nossa formação que deixa a música como protagonista e o solista em evidência. Assim, fomos agregando tantos grandes parceiros como Nelson Aires, Beto Ortis, Jovino, por exemplo”, comenta Maestro Spok.

O álbum expande as experiências sonoras e amplia regras quase imutáveis da fórmula típica do frevo, também na carta de compositores, mostrando que o ritmo não demarca apenas um reduto pernambucano, mas permeia a história da música popular brasileira. Numa pluralidade de sotaques, estão presentes:  a faixa título Ninho de Vespa, de Dori Caymmi com letra de Paulo Cesar Pinheiro;  a parceria em Tá Achando que Tá Devagar? de Hamilton de Holanda, que participa com seu inconfundível bandolim; Comichão, de Jovino dos Santos Neto; Quatro cantos, com Nelson Ayres ao piano; e Spokiando, assinada pelo violonista alagoano João Lyra (junto com Adelson Viana).

“Assim, entre tantos frevos e amigos, somos um Ninho de Vespa, como canta a canção de Dori Caymmi que dá título ao disco. Há uns 15 anos eu a escutei pela primeira vez e mudou minha forma de perceber o frevo. É com muito prazer que conseguimos inclui-la no disco e que o ídolo Dori tenha participado conosco nessa empreitada”, alegra-se Spok.

Entre as pratas-da-casa de Pernambuco, demarcam o território do frevo clássicos de Nelson Ferreira (1902/1976), na trilogia Gostosão, Gostosinho e Gostosura. O forró deu passos de frevo em Capibarizando, de Beto Hortis, um dos grandes sanfoneiros nordestinos e na belíssima 11 de abril, de Dominguinhos, com um arranjo antológico de Spok. Nas apresentações na Europa, a execução deste tema, um frevo-de-bloco que, de repente, vira frevo-de-rua, levantou plateias. Aliás, boa parte deste repertório de treze faixas foi testada e lapidada no palco.

Com esse disco, o propósito maior da SpokFrevo – arrancar o frevo do seu papel coadjuvante e levá-lo ao palco, como ator principal – vem sendo cumprido, reinventando a tradição com excelência musical e conhecimento de causa.

Download:  Ninho de Vespa


terça-feira, 8 de abril de 2014

Dry - Enjoy the Fall (2014)



Release:

Pesado e melódico, o Dry é uma banda de rock alternativo que acumula três anos de performances em vários dos maiores festivais de música do Estado de Goiás, como o Goiânia Noise, Vaca Amarela, Tattoo Rock Fest, Devassa Sessions, Bananada, dentre outros. Dignas de menção são também as performances no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) e no Un-Convention, além dos shows em outras partes do país, como a turnê mineira pelo Festival Grito Rock. 
Enjoy the Fall, seu álbum de estreia, coloca-se como o retrato sonoro da interação dos quatro integrantes da banda dentro e fora dos palcos, algo que, se por um lado traz diversidade às composições, por outro dá a elas unidade e identidade.

Download:  Enjoy the Fall