sábado, 29 de novembro de 2014

Ganeshas - Cabeça Parabólica (2013)





por Arthur Dapieve

"Admito que estava um pouco apreensivo. E se, a despeito das qualidades das músicas antigas, o segundo trabalho fosse uma bomba? Isso não é tão comum? O primeiro jorra a criatividade acumulada durante anos de vícios e ensaios solitários, e na sequência o segundo mal se sustenta de pé... Meus temores não duraram nem três minutos e meio, a duração da primeira faixa, Longe do Rio. Aquilo era mais roqueiro do que as outras coisas de que eu me lembrava da banda e, bingo!, aderia ao ouvido como a boa música pop. (…) Os outros trinta e três minutos e pouco do CD não abalaram a minha convicção de que ali havia um trabalho bem pensado, com início, meio e fim. (…) Além de Longe do Rio, também a tristíssima balada chico-buarquiana Ano novo ou o terno baião-rock Da panela (que virou o primeiro clipe oficial do disco) bombariam nas rádios de um mundo ideal. O CD Cabeça parabólica simplesmente não tem música ruim. Tenho é dificuldades em escolher a minha faixa favorita. Se é o humor intelectual de Rua Araucária ou se é a autobiografia-de-muita-gente Ele não sabe dançar. Bom, eu vou ficar por aqui, ouvindo o disco de novo, de novo e de novo para tentar decidir. (…) Fico feliz quando escuto garotos que saem da zona de conforto da música de elevador e assumem, mais do que o som, a postura do rock como modo de fazer diferença na vida das pessoas. (...)"

Download:Cabeça Parabólica


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Criolo - Convoque Seu Buda (2014)




Por Luciana Rabassallo

Nasceu! Um dos discos mais aguardados de 2014, Convoque Seu Buda, terceiro registro de estúdio do rapper Criolo, foi disponibilizado para audição e download gratuito na noite desta segunda-feira, 3, sem aviso, pompa ou firula. Com 10 faixas, entre elas “Duas de Cinco”, que já havia saído no EP de mesmo nome, lançado em 2013, o álbum é uma nova imersão do músico no que mais popular há na música brasileira. Rap, samba, rock, reggae e forró são alguns dos gêneros pelos quais Criolo transita com leveza e naturalidade no disco.


Produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, Convoque Seu Buda foi gravado no estúdio El Rocha, na zona oeste de São Paulo, entre o fim de julho e o início de setembro. O álbum, mixado por Mario Caldato Jr. e masterizado por Robert Carranza, em Los Angeles, conta com participações de Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Tulipa Ruiz, Neto, do grupo Síntese, e Rodrigo Campos, com destaque para Money Mark - produtor e colaborador dos Beastie Boys. Além do lançamento no Brasil, o trabalho foi divulgado simultaneamente na Europa – pelo selo Sterns Music - e nos Estados Unidos – pelo selo Circular Moves.

Em entrevista publicada na edição 97/setembro da revista Rolling Stone Brasil, o rapper falou sobre o disco: “Você tem que sorrir, mas pode sorrir até certo tanto”, explica Criolo, sobre a maneira como o terceiro álbum refletirá tudo o que aconteceu com ele nos últimos anos. “Todo mundo fala de um sorriso largo, que isso contagia. Ao mesmo tempo, se você parar para pensar, o sorriso parece ter o prazo de alguns segundos.”


As comparações com os dois álbuns anteriores, Ainda Há Tempo (2008), gravado aos poucos e praticamente sem recursos, e o reconhecido Nó Na Orelha (2011), aclamado pelo público e pela crítica, são inevitáveis. Enquanto os fãs de rap esperavam uma sonoridade mais “pesada”, pauta em beats graves e rimas diretas como as de Ainda Há Tempo, Convoque Seu Buda exala o amadurecimento de Criolo como músico e decreta que não há barreiras musicais para o trabalho dele.


“Convoque Seu Buda”, “Esquiva da Esgrima” e “Plano de Voo”, além da já citada Duas de Cinco”, são as canções que carregam a origem artística de Criolo. Nas quatro faixas, ele rima sobre as desocupações violentas que aconteceram em São Paulo este ano, cita ídolos como Black Alien, Ferréz, Sartre, Nietzsche, Sabotage e Perrenoud, além de mostrar a insatisfação dele com a sociedade consumista e a preocupação com os irmãozinhos que estão nas ruas por conta da expansão imobiliária.


Assim como em Nó Na Orelha, o novo trabalho também carrega um samba e um reggae. “Fermento Pra Massa”, que tem arranjos de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, fala sobre a falta de pão na padaria por conta de uma greve de ônibus na cidade, que impossibilitou a ida do padeiro ao trabalho. Já o reggae “Pé de Breque”, que lembra muito “Samba Sambei”, do disco anterior, é uma ode ao estilo de vida pregado pelo Movimento Rastafári.
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O grande destaque do álbum, contudo, é uma parceria entre Criolo e a cantora Tulipa Ruiz. Em “Cartão de Visita”, o mote gira em torno do dinheiro: MC Lon, expoente do funk ostentação, e Thassia, blogueira de moda teen, são citados na letra como jovens que souberam aproveitar a veia consumista da geração deles, enquanto o refrão retrata um garoto pedindo dinheiro no farol.

Mas as citações não param por aí. No meio da canção, Criolo, com voz empostada, solta a seguinte frase: "A alma flutua/ Leite a criança quer beber/ Lázaro, alguém nos ajude a entender", referindo-se a uma entrevista dada por ele ao apresentador Lázaro Ramos e que virou motivo de piada na internet por conta do discurso pouco claro de Criolo.

As novidades de Convoque Seu Buda ficam por conta do baião dançante “Pegue Pra Ela”, que poderia estar em um disco do Instituto, projeto capitaneado por Ganjaman, Rica Amabis e Tejo Damasceno, ao lado de “Fio De Prumo (Padê Onã), outro forró com participação de Juçara Marçal e letra de Douglas Germano.

Download: Convoque seu Buda


domingo, 16 de novembro de 2014

Clarissa Mombelli - Sempre Mais (2014)




“Sempre Mais” é o nome da nova música da cantora e compositora que terá seu disco lançado em março de 2015.

Influenciada pelo rock, pelo folk e a MPB, a gaúcha Clarissa Mombelli gravou seu primeiro CD, “Volta no Tempo”, em 2010. O álbum retrata a infância e a juventude da cantora. Dois anos mais tarde, “Nesta estrada e no fim” entrou em produção, repetindo o tom emocional repleto de homenagens e lembranças, mas trazendo uma nova visão de mundo. “Possui temas e questionamentos que eu estou vivendo. O álbum de 2010 está repleto de temáticas que eu deixei pra trás, foram importantes na minha vida naquele momento. Fala mais de infância, de sentimentos jovens e até infantis, já nesse segundo falo de sentimento com uma abordagem diferente”, explica.
O segundo disco também passou por inovação, com colaboração de vários cantores e amigos convidados, como as compositoras de Porto Alegre Carmen Corrêa e Lara Rossato, e o compositor Uruguaio Sebastian Jantos, que cantam com Clarissa em algumas faixas do disco. Além da pluralidade, a produção acontece em São Paulo, Uruguai e Porto Alegre, contando com a colaboração de 06 diferentes produtores: Eduardo Dolzan, André Brasil, Vini Albernaz, Diego Janssen, Guilherme Almeida e Iuri Freiberger, o que garante uma mistura de ritmos e experiências. A intenção é oferecer ao público um CD com 12 faixas de repertório amplo e diverso. “Será um trabalho mais eclético”, completa. 
O single “Sempre Mais” pode ser ouvido e baixado pelo soundcloud.com/clamombelli ou pelo site da cantora www.clarissamombelli.com.br. É uma produção de Guilherme Almeida (ex integrante da banda Publica e atual baixista da banda Pitty) e tem participação da bateria de Thiago Guerra (baterista da banda Fresno).
Sempre Mais (Clarissa Mombelli) 
Gravada e mixada no Estúdio Bugrada Records, São Paulo, SP, Brasil, Produzida por Guilherme Almeida 
Guilherme Almeida (guitarra, Baixo, violão, piano e synth) Thiago Guerra (bateria) Clarissa Mombelli (Voz) 
Mixagem final: Iuri Freiberger. 
Masterização: Mubemol, Gilberto Ribeiro Jr.

Download: Sempre Mais

domingo, 9 de novembro de 2014

Alessandra Leão - Pedra de Sal EP (2014)




Pedra de Sal
EP

“bem quando acho que encontrei a mim mesma, preciso sempre retornar pra chegar um pouco mais perto. é um caminho individual, mas não solitário: é a casa cheia de amigos, amor e risadas- muitas mãos pra me sustentar quando minha alma treme. em meio a tudo isso, a música segue até o final do ritual, até termos saudado todas as forças da nossa própria natureza.”

 Alessandra Leão

O Disco

Pedra de Sal é o primeiro capítulo do novo ciclo criativo de Alessandra Leão, Língua, que será lançado no formato de três EPs: Pedra de Sal, Aço e Língua. O disco, que tem direção artística de Alessandra e produção musical de Caçapa, é um lançamento do selo Garganta Records em parceria com a YB Music.

Dentro da trajetória artística de Alessandra, Língua é um mergulho profundo na construção e desconstrução do seu processo criativo, um salto em direção a uma sonoridade visceral, pessoal e intensa. Em fronteiras que se dissolvem, a música de Pedra de Sal abre-se ao ruído e à fragmentação e reinventa sua relação com a polifonia de matriz africana e com a tradição musical do Nordeste.

O primeiro EP apresenta duas composições de Alessandra (Pedra de Sal e Mofo), duas parcerias com Kiko Dinucci (Tatuzinho e Devora o Lobo), além de Doutrina e Toque de Yemanjá, uma recriação de toadas tradicionais do Babassuê de Belém do Pará e do Xangô do Recife (originalmente gravadas pela Missão de Pesquisas Folclóricas, idealizada por Mário de Andrade, em 1938).

O disco conta com a participação de Caçapa (guitarra e arranjos), Rafa Barreto (guitarra), Missionário José (baixo), Mestre Nico (percussão), Guilherme Kastrup (bateria e percussão), Kiko Dinucci (voz e guitarra), Juçara Marcal (voz), Sandra Ximenez (voz) e Lurdez da Luz (coro). Tem co-produção musical de Kiko Dinucci e Guilherme Kastrup nas faixas Tatuzinho, Mofo e Devora o Lobo e co-direção artística de Luciana Lyra. O projeto gráfico é assinado por Vânia Medeiros, com fotografia de Tiago Lima e figurino da marca Francisca, de Virgínia Falcão.

É o encontro desses pares que expande os limites da música de Alessandra e fortalece o diálogo com outras linguagens artísticas: uma teia de sons, poesia, artes cênicas e visuais. Assim, Pedra de Sal abre espaços íntimos entre linguagens. Espaços de invenção e criação, de transgressão e ruptura. Do íntimo que se pode partilhar.

Histórico

Alessandra Leão é percussionista, compositora e cantora. Iniciou sua carreira em 1997 com o grupo Comadre Fulozinha e atuou ao lado de músicos como Antônio Carlos Nóbrega, Siba, Silvério Pessoa, Kimi Djabaté (Guiné Bissau), Florencia Bernales (Argentina), entre outros. Em 2006, Alessandra deu início ao seu trabalho autoral, com o elogiado Brinquedo de Tambor. Produzido e arranjado em parceria com o violeiro, compositor e arranjador Caçapa. Em 2008 lançou o CD do projeto Folia de Santo, idealizado, coordenado e produzido por ela. Em 2009, lançou seu segundo CD solo Dois Cordões, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo e produzido por Caçapa. Nesse mesmo ano compôs a trilha sonora do espetáculo teatral Guerreiras, de Luciana Lyra, lançado em livro+CD em 2010. Tem realizado turnês no Brasil, Argentina, Colômbia, França, Bélgia, Portugal e Holanda.



Pedra de Sal por Arthur de Faria

Acompanho o trabalho solo da Alê (ao lado de seu marido/arranjador/guitarrista Caçapa) desde seus primeiríssimos passos. Sempre me encantou a voz crua em contraponto com, justamente, os intrincados contrapontos armados pelos arranjos - em cima de uma música que, ao mesmo tempo, é tão ligada à sua ancestralidade quanto fincada no século XXI,  tempos pós-tudo, às vezes tão difíceis pra quem nasceu antes dos últimos 20 anos do século XX.

O que sempre seguiu me interessando na sua música, e me encanta, é que, como grande parte dos grandes artistas que propuseram novas sínteses, Alê (e Caçapa) tem buscado, ao mesmo tempo, aprofundar o foco e abrir o horizonte. 

Parece fácil? É a coisa mais difícil desse mundo. Mas tá ali, escarrado a seco nesta primeira parte da trilogia de EPs Pedra da Sal. O foco se aprofunda na abertura - Yemanjá --, recriando o que Mário de Andrade registrou no Recife em 1938, levando o conceito de Alê (e Caçapa) a níveis inéditos de sonoridade, arranjo, interpretação, radicalizando o minimalismo e ainda introduzindo dissonâncias onde antes não havia. 

E aí as quatro seguintes, Pedra de Sal, Mofo (ambas de Alessandra) e  Devora o Lobo (Alessandra e Kiko Dinucci) apontam outras direções, mas tem um fio claro com todo o já feito. E nem podia ser diferente, pra um artista sensível: num momento em que a realidade brasileira está em algum lugar que não o canto “fofo” que parece ser comum a TODAS as cantoras com menos de 40 anos (e note: nada contra o “canto fofo” - tudo contra o TODAS), nada mais distante de uma postura “desencanada”, “leve” ou “descompromissada” do que esse novo trabalho de Alessandra. A raiva, o pasmo, o grito, tudo isso não havia no seu canto e na sua composição. Agora há.

Uma artista de seu tempo.

“Não Se Vive Impunemente as Delícias dos Extremos”, ostentava como título - em rosa! - um livro grosso na prateleira da biblioteca da casa dos meus pais, lá no alto, que eu mirava com a curiosidade imensa dos meus oito anos. Nunca abri pra ler. Nunca li. Mas êita frase que tem feito cada vez mais sentido...

Arthur de Faria é músico, mestre em literatura brasileira e ex-jornalista

Pedra de Sal por Martim Simões

Se para muitos de nós evoluir, no sentido de mudar e inovar, é um dos principais conflitos da vida, para artistas que lidam com linguagens tradicionais, essa tarefa é ainda mais árdua.

Funciona assim: se você inicia a sua trajetória artística lidando com algo que é entendido como folclore, em suas formas mais prevalentes, espera-se que permaneça assim, engessado nesse formato, para sempre. Do contrário, o artista cai na vala dos pecadores, daqueles que tiveram acesso à manifestação mais pura, plena e correta, mas que por usura, ignorância ou mero capricho resolveram se desviar daquilo que para muitos é sagrado.

Mesmo hoje, quando fusões e releituras preponderam, artistas que mudam de rota são frequentemente denunciados como traidores ou impostores. Ouvimos: “Fulano tinha talento, mas agora vai fazer um filme em Hollywood” ou “Sicrano era um grande músico, até começar a mexer com essa parafernália eletrônica”. Tais julgamentos, além de obtusos, escondem um simplismo que não cabe na vida dos verdadeiros artistas. 

Há um jogo que se repete no fazer das artes. Uma gangorra entre o que revelar e o quanto esconder, entre o que é escolha e o que é pulsão. A isso se junta o desejo de criar uma ponte entre o que se tem para oferecer e a expectativa do público. Ou, de forma mais absurda, o que o artista imagina que os outros querem dele. E é fácil ficar refém do olhar alheio ou do medo de se perder ao tentar trilhar novos caminhos. 

Mas arte implica em risco e é precisamente isso que Alessandra Leão demonstra em Pedra de Sal. Nesse EP, ela cristaliza anos de viagens, parcerias, reflexões e muita escuta. Depois de quase duas décadas lidando principalmente com as sonoridades tradicionais do nordeste, o desafio agora é acrescentar a música mais contemporânea de São Paulo ao seu repertório. Alguns ouvirão como rompimento, mas eu ouço aqui uma continuidade renovada. Mesmo que muito tenha mudado, existe nessa novidade, temas e modos de expressão que se coadunam com o restante da sua produção. 

E o que soa dissonante retrata com perfeição o que deveria ser a missão de qualquer artista a cada novo trabalho: o ato de parir a si mesmo, na certeza de que o seu único compromisso é com a sua obra.

Martim Simões é cineasta.

Download:  Pedra de Sal