domingo, 10 de maio de 2015

Cícero - A Praia (2015)


A primeira impressão é a que fica. E esse é o problema de Cícero. Canções de Apartamento foi uma das melhores surpresas de 2011 (ano em que também estreou Bixiga 70) e, inevitavelmente, gerou expectativa para os próximos lançamentos do cantor carioca. Sábado veio dois anos depois, mas parece ter sido um EP que Cícero gravou em um fim de semana de ócio. Os fãs não reclamaram, a crítica não deu muita atenção, Cícero não entrou para o esquecimento, mas também, definitivamente não ganhou mais público graças ao seu segundo disco. Poderíamos dizer que o azar de Sábado foi ter vindo depois do Canções - álbum recheado de hits, onde praticamente nenhuma faixa se descarta - mas a verdade é que, se invertêssemos a ordem, e se aquele álbum de 2013 tivesse sido o seu primeiro, dificilmente estaríamos falando dele hoje, já que não é um trabalho bom a ponto de consagrar um artista como Canções de Apartamento conseguiu fazer.

Cícero conquistou um público e pôde mantê-lo. As faixas de seus discos (e também eles) têm uma sequência. Primeiro, de seu apartamento, ele entregou uma obra simplista e caseira, onde se ouvem sons de grilos, pássaros e chuva. É um disco que é a cara do Rio de Janeiro nublado, fim de tarde e cerveja gelada. Depois, um sábado de chuva, onde ele ousa sair do apê, andar pela “avenida, bairro e redondeza”, como ele canta em Asa Delta, e “visitar seu prédio”, como em Por Botafogo. Agora Cícero foi mais longe. “Ela me tirou de casa / ela me levou à praia”, diz na música que dá título ao seu terceiro disco. A praia começa com Frevo Por Acaso nº 2, como continuação da música que encerra Sábado. Os discos continuam a dialogar nas faixas que mencionam um tal caminhão de gás, que vem pra suprir necessidades ou explodir tudo. Também como continuação, ele mais uma vez entregou um trabalho que só ele entende e que dialoga pouco com o público. Rodrigo Amarante fez algo parecido em Cavalo, um disco altamente pessoal, particular e que pouco interage com o ouvinte.


A Praia é o tipo de disco que pode ficar no repeat por horas, sem ser notado. O que é uma pena, já que Cícero é tudo menos entediante. Quem antes queria passar um fim de semana em seu apartamento, agora não vai aguentar dar duas voltas na praia com ele. Depois de já ter sido incomparável, Cícero agora ficou mais parecido com outros nomes da dita “nova MPB”, tipo Castelo Branco e Wado. Não que isso seja ruim, é ótimo. Para quem estiver conhecendo o cantor agora, ele pode ser apresentado como: "é tipo a Banda Mais Bonita da Cidade, só que bom”. Isso, sim, é péssimo.

Versos do Canções que falavam em “discutir Caetano” e “fala pra ele do disco do Tom Jobim” explicitavam as referências de Cícero nos nossos clássicos, que só se fizeram sentidas nos discos seguintes, como em Duas Quadras, um sambinha que parece ter sido extraído de Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo (1972), e em Soneto de Santa Cruz, cuja letra lembra composições de Chico Buarque.

Duas faixas se sobressaem em A Praia: De Passagem, que, em um determinado momento, puxa um acordeon, uma zabumba e um triângulo, que, mesmo triste, faz um forrozinho que qualquer banda de pé-de-serra poderia fazer cover e todo mundo iria adorar; Terminal Alvorada, que, por conta dos instrumentos de sopro e da bateria levam para um “jazz indie” e que encerra o disco dizendo “faz um tempo eu não sei o que é saudade”, diferente de todo o clima saudosista e nostálgico de seus trabalhos anteriores, deixando a sensação de que, se continuar seguindo uma lógica, Cícero vai nos presentear com algo muito bom em breve. Então melhor voltar para o apartamento antes que comece a chover.

DOWNLOAD: A PRAIA
______________________
Pedro Philippe é jornalista da CARIRI Revista

Nenhum comentário:

Postar um comentário