domingo, 21 de fevereiro de 2016

Clarice Falcão - Problema Meu (2016)


Ano passado, o humorista/ator/roteirista Aziz Ansari lançou pela Netflix o seriado Master of None, sua primeira "obra", depois de passar anos em shows stand-up. Não há nenhum novo Woody Allen nos Estados Unidos, assim como não há nenhum novo Caetano Veloso surgindo entre nós. A genialidade da Geração Y tem se limitado a algumas cabeças que pensam mil coisas ao mesmo tempo, desempenham mil funções e fazem bem (apenas "bem") um pouco de tudo. Master of None é uma comédia na média, interessante por ser cópia fiel de uma geração de jovens que não conseguem se tornar adultos. A mesma ansiedade, senso de humor, inexperiência em relações amorosas e imaturidade aparecem em Problema Meu (2016) da recifense-carioca Clarice Falcão.

A cantora/atriz/humorista/roteirista/compositora entrega um álbum que, de cara já diz “queria te dizer / que esse amor todo por você / ele é irônico, é só irônico”, seguido de “eu escolhi você / porque não tá fácil assim de escolher / tem muita gente ruim”. Tentei ouvir esse disco enquanto lia a última edição da piauí, mas não deu. Problema Meu é de se ouvir prestando atenção. Meio crônica, meio carta, as músicas contam histórias engraçadas demais, verídicas e exageradas demais para não ocuparem todo o tempo do ouvinte. Fica tão na cara que Clarice se diverte com sua música, que é impossível não se divertir também. Graças ao fim do relacionamento com Gregório ou não, Clarice tirou de algum lugar muito familiar à nossa geração a inspiração para cantar "você me traía / trocando carinhos / com outras pessoas", no brega Banho de Piscina, e "eu já não amo mais você / mas eu ainda odeio essa menina", no folk Deve Ter Sido Eu.



Canções de anti-amor são sempre mais sinceras do que as românticas, assim como os momentos de crise despertam o processo criativo dos artistas bem mais do que a prosperidade. Ao pensar em álbuns que saíram do fundo do poço, rapidamente me vêm à mente os de três cantoras inglesas que imprimiram em seu trabalho toda mágoa, luto e cachaça do fim de um relacionamento. Amy Winehouse com o doloroso Back To Black (2008), resultado do término do namoro com Blake Fielder, o junkie que até hoje leva a culpa por sua morte; o 21 (2011) de Adele, talvez a maior sofrência do mundo da música, de deixar no chinelo muito Odair José e muita Dalva de Oliveira, e também tão lucrativa que o ex quis participação nos royalties por ter servido de inspiração; e a viuvez de Corinne Bailey Rae, que esteve presente em The Sea (2010), depois de seu marido morrer de overdose.

Em Monomania (2013) Clarice Falcão ainda cantava versos lindos e fofos que diziam “se eu tiver coragem de dizer / que eu meio gosto de você / você vai fugir a pé?”, “e foi assim que eu vi que a vida colocou ele pra mim” e “quando eu te vi fechar a porta / eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar”. Ela vinha do YouTube, onde postava vídeos tocando violão como um mortal qualquer, a capa do disco era meio cult bacaninha, ela posava em fotos usando coroa de flores, bombava na web com as esquetes do Porta dos Fundos, fazia um casalzinho lindinho ao lado de Gregório Duvivier, lotava o Circo Voador e era a prova de que senso de humor cobre a falta de uma afinação mais potente e de métrica nas composições. A voz dela não impressiona, as rimas às vezes não fecham e volta e meia ela fala em vez de cantar. Mas quem se importa? O talento de Clarice se sobrepõe às regras.

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Pedro Philippe é repórter da CARIRI Revista