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sábado, 24 de março de 2012

Baiano e os Novos Caetanos (1974)



POLÍTICA DO ESCRACHO
Nos anos de chumbo, Chico Anísio e Arnauld Rodrigues cri­a­ram o Baiano & Os Novos Caetanos para tirar sarro dos tro­pi­ca­lis­tas e da dita­dura
Por Alan Luna


Vedete do pós-modernismo, o pas­ti­che foi uma das ban­dei­ras do movi­mento tro­pi­ca­lista. O debo­che e a iro­nia punham por terra as noções de bom e mau gosto, do brega e do chi­que. Como todo movi­mento que se torna canô­nico, porém, o tro­pi­ca­lismo foi tra­gado pelo mains­tream e pas­sou, ele pró­prio, a se pres­tar a estereotipizações.


A pedra virou vidraça. E um dos gol­pes mais cer­tei­ros des­fe­ri­dos con­tra ela foi a dupla Baiano & os Novos Caetanos, for­mada pelos humo­ris­tas Chico Anísio (hoje na gela­deira da Globo) e Arnauld Rodrigues (atu­al­mente no kitsch A Praça É Nossa). O nome da dupla, extraído de um qua­dro do Chico Anísio Show, é uma brin­ca­deira com dois totens tro­pi­ca­lis­tas: Caetano Veloso e o grupo Novos Baianos.


A dupla estreou com um disco homô­nimo em 1974. E o mais sur­pre­en­dente é que a piada não per­deu a graça. Ainda hoje, a audi­ção do álbum é inte­res­sante. Primeiro, pelo motivo óbvio: é engra­ça­dís­simo ao tirar sarro dos tre­jei­tos, dos tiques e dos caco­e­tes dos tro­pi­ca­lis­tas. E aí entram a bai­a­ni­dade male­mo­lente, a fala mansa, o papo-cabeça.


Segundo por­que, sem ser chato, o disco tem um dis­curso polí­tico (não esque­cer que os tem­pos eram de chumbo). “Vô Bate Pa Tu”, ao mesmo tempo em que tira onda com as letras de viés estruturalista/concretista, lem­bra os cagüe­tes da dita­dura (Deduração / um cara louco / Que dan­çou com tudo / Entregação com dedo de veludo / Com quem não tenho gran­des liga­ções). Já “Urubu” tá com raiva do boi e uma esto­cada no “mila­gre econô­mico”, que, mui­tas vezes, estava mais no dis­curso ame-o-ou-deixe-o que pro­pri­a­mente na vida cotidiana.


Há ainda um ter­ceiro ele­mento que o torna inte­res­sante: a sono­ri­dade. Acredite: a dupla tinha uma banda azei­tada, que pra­ti­ca­mente não deixa nada a dever, por exem­plo, aos ori­gi­nais Novos Baianos (o que não é uma tarefa assim tão fácil). “Véio Zuza”, que versa sobre uma espé­cie de Mãe Menininha do Gantois da dupla, é tam­bem uma musica pop de levada interessante.


O nego­cio deu tão certo que Baiano e os Novos Caetanos lan­ça­ram outros dis­cos. Estes, embora tenham, aqui e acolá, bons momen­tos, seguem, na mai­o­ria das vezes, o cami­nho oposto ao da estréia: são dis­cos de come­di­an­tes – e só. Ainda assim, Baiano e os Novos Caetanos (o disco de estréia e a dupla) é um capi­tulo da nossa música que merece ser (re)descoberto. Dá pra rir. Dá para se diver­tir. Dá até pra pensar


BAIANO E OS NOVOS CAETANOS
Baiano e os Novos Caetanos
[1974]

Download: Baiano e os Novos Caetanos