Mostrando postagens com marcador Eddie. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eddie. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de maio de 2015

Eddie - Morte e Vida (2015)




Surfrevo
Juntando blues e samba, frevo e surf music, Caribe e Recife, a banda Eddie chega ao sexto álbum levando o Original Olinda Style à maturidade — sem perder pegada nem frescor
por Ronaldo Bressane*
Eddie — a mais rápida das bandas lentas, ou a mais lenta das bandas rápidas — está de volta. Liderando o Original Olinda Style — frevo no punk, Caribe no mangue —, Fabio Trummer e seus asseclas trazem, em Morte e Vida, uma releitura muito particular do cabralino Morte e Vida Severina. É um álbum solar como a Olinda em que nasceu, nos surfrevos e nas baladas de amor; mas também guarda uma musicalidade enigmática como as esquinas olindenses, seja nos sambas de acento punk, seja nas canções em que o romantismo exibe seu sabor mais amargo.
            É como se o álbum se equilibrasse entre a louvação da festa e a crítica social — na verdade, dois pilares em que o grupo se sustenta há 25 anos, quando apareceu com a geração que trouxe ao mundo o manguebeat. As subidas e descidas das ladeiras dão a tônica do Original Olinda Style: euforia e melancolia, lirismo e política convivem na mesma batida e na mesma canção. Trata-se do sexto álbum da banda, o primeiro em quatro anos: Veraneio (2011), Carnaval no Inferno (2008), Metropolitano (2006), Original Olinda Style (2002) e Sonic Mambo (1998).
            Os contrários convivem na buena no corpo sonoro da Eddie, onde há espaço para Serge Gainbourg, Chavela Vargas, Sivuca, Sleaford Mods, Luiz Gonzaga, Leonard Cohen, João Gilberto, Nick Cave, Manoel de Barros, Patativa do Assaré e até Xico Sá. O apego à identidade musical brasileira contemporânea, abençoada por íconesda presença de Jorge Mautner e Novos Baianos, coloca o trabalho de Eddie no mesmo universo onde desfilam nomes como Otto, Lucas Santtana, Cidadão Instigado e Criolo.
            O som coeso demonstra a consistência de princípios de uma formação unida há 12 anos: Kiko Meira na bateria, Rob Meira no baixo, Alexandre Urêa na percussão e voz, Andret Oliveira no teclado e trompete, Trummer na voz e guitarra. O frontman parou entre março e novembro de 2014 para compor as canções em sua casa em São Paulo. Gravou tudo na voz e violão, enviou aos parceiros da banda, e já em fins de novembro e dezembro a Eddie começou a ensaiar e arranjar as faixas. Gravaram uma pré-produção e no primeiro dia útil de janeiro — pense num mês difícil pra trabalhar em Pernambuco! —, o quinteto se fechou no estúdio Fruta Pão, ali mesmo em Olinda; foram quatros semanas até gravar todas as 11 faixas. Em seguida o álbum foi mixado no Recife pelo usual companheiro Berna Vieira, e, em seguida, masterizado no mítico estúdio El Rocha, em São Paulo, pelo produtor Fernando Sanches Takara.
Faixa a faixa
            Uma das melhores canções do álbum, "Queira não" começa devagar, na manha, sussa, de boa, meio samba, meio blues, a voz de Fabinho cada vez mais grave — o registro lembra um pouco Zé Ramalho, referência distante mas importante. É uma faixa de fato severa:"Preto Velho, pense merda não que o mundo já tá cheio, isso não é solução", aconselha o cantor. Parece uma crítica às exasperações políticas dos últimos anos, que fizeram das ruas um FlaXFlu insensato: "Desculpe a gentileza/ eu desculpo o empurrão". Assombrações não só do Recife Antigo como do Brasil novo, que Trummer trata de espantar com a usual elegância, como já havia feito em "Desequilíbrio".
            Na onda do clássico "Quando a maré encher", o surfrevo "Quebrou, saiu e foi ser só" tem um trecho que quase cita a cadência de um berimbau, invertido; é canção que quase comemora e ao mesmo tempo quase chora um amor que se perdeu. Envolto em cordas melancólicas — no cello de João Carlos e no solinho de guitarra limpo, habitualmente sem firulas nem efeitos, de Trummer —, o surfrevo é uma sofrência chorada com estilo e classe. Também no segmento de canções rápidas pero lesadas, "Carnaval de bolso" é outro frevo espacial temperado de surf music e malemolência caribenha. Prossguindo uma tradição festeira da Eddie ao bordar de rock o carnaval, oferece seus mandamentos: "Isso sim eu dou valor: praticar meu festejar (...) um ano inteiro de ressaca é a hora do juízo final".
            Recordando o cancioneiro de Nick Cave, "Longe de chegar" é um rock pesado e lento,suavizado pela voz de Karina Buhr — auxílio luxuoso e constante, este já é o quinto álbum da Eddie de que a cantora participa. Falando em "Sempre tão distante/ longe de chegar/ lugar tão diferente/ lugar tão singular", a balada cita os encontros e os desencontros do amor, tema que perpassa todo o álbum.
            "A prova do crime é o corpo à prova de Deus/ ao provar a bala, morto/ a prova morreu."A faixa-título "Morte e vida" combate o bom combate: contra a violência urbana, aceno à pazsem pieguice: de sabor setentista, o rock quase reggae mostra como as palavras podem semear a discórdia. A canção faz par com "Pedrada certeira", que parece ecoar a famosa frase de Einstein:"Não sei que armas irão usar na Terceira Guerra, mas sei que na Quarta combaterão com paus e pedras". Enquanto o backing vocal de Karina lembra as agressões — "Mata, mente, morta, vende/ soco, chute, risca-faca/  marca, fere, fogo, ferve/ canto, ferro, corta, rasga" — , Trummer comanda a ciranda-pogo neste punk rock crítico e pacifista, na linha das primeiras canções da Eddie.
            "Tentei te ligar" traz o conhecido balanço dabanda:um jeitão meio bolero, é música pra dançar juntinho, pra fazer um chamego na gata, no gato, na pista, sob luz negra e globo espelhado, pra mandar um recado sob as brumas do álcool. O acento cubano remete àintrínseca identidade do Recife com o Caribe negro, sem deixar de fazer seu aceno ao brega presente na obra da mexicana Chavela Vargas, influência assumida por Trummer: "Já tentei te ligar, também não consigo dormir/ já desisti de pensar, mas não consigo cumprir/ já decidi te largar, me prometi outro amor/ me preparei pra bailar, mas sempre falta sabor".
            Presente na trilha sonora de Que horas ela volta?, premiada produção de Anna Muylaert a estrear em 2015, a balada atmosférica "Meu coração" é uma declaração de amor de ressonâncias gainsbourguianas:"Foi meu coração que me entregou pra tu/ fazer do meu coração o que tu quiser".A melodia levemente acompanhada pelo trompete e os teclados de Andret Oliveira faz a canção circular classuda e bêbada.
            Mas de que se alimenta o compositor, fora amor, greia e maresia? Saci, flor, rede e as palavras de Xico Sá, Manoel de Barros e Patativa do Assaré, detalha Trummer em "Alimenta o compositor". O clima relaxado de uma tarde malandra na praia Del Chifre, em Olinda, ou em seus misteriosos quintais, sugere, neste samba groove lento, o que vai por dentro do compositor: "Ondas gigantes, sotaque imigrante, pimenta, pólvora, fogo e sal/ suspiro, bocejo, cantiga, cortejo, frenesi, festa no quintal, bebida, folguedo, alegro cantante, pureza, dureza, pobreza, derrota e castigo/ o bem-estar e o não estar contigo".
            Também estrelando a trilha de Que horas ela volta?(que, aliás, levou o prêmio de melhor filme de público no Festival de Berlim), "Essa trouxa não é sua" evoca o samba minimalista de João Gilberto. Adornado pelo cello de João Carlos e temperado pelos scratches sacanas de KSB e a percussão macumbeira de Jam da Silva, parece um samba feito nos anos 30 ou 40; parece um samba feito antes do samba: "Solta esse cabelo e te alegra/ quando é que a gente erra/ vendo o mundo melhorar?/ Larga que essa trouxa não é sua/ vem cuidar da roupa tua/ tão bonita de usar".
            Parceria com Erasto Vasconcelos e os irmãos Meira, "Olho você" é um suave rock oitentista que mostra o compositor docemente contemplando a mulher amada — que negaceia mais um carinho, mas ainda assim sugere uma próxima sessão de sabe-se lá o quê: "Não venha você me dizer que não quer/ não venha você dizer que lá nos sonhos os sons são azuis, como um mar, como um céu, como um blues". Afinal, o céu já parece residir ali entre os lençóis, não?
_______________
Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor de V.I.S.H.N.U. (Companhia das Letras), Mnemomáquina (Demônio Negro) e Sandiliche (Cosac Naify), entre outros


Download:  Morte e Vida


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Baião de Viramundo - Tributo a Luiz Gonzaga




Gláuber Rocha profetizou e Conselheiro abriu os canais: o Sertão vai virar um mar de criatividade que inundará o mundo, contra a secura dos impostos pela indústria cultural.
O inglês de Ariano Suassuna é tão pobre quanto o be-bop no samba de Jackson do Pandeiro. Mas quem precisa de inglês e be-bop, quando se tem Jacinto Silva e Cascabulho?
Fato é que a Bossa Nova não nasceu com João Gilberto, mas a partir dele. E por isso a Bahia colaborou com a preguiça, e a genialidade, da batida. A Tropicália nasceu com a Bahia, e Caetano e Gil; mas foi o tempero de Luiz Gonzaga e Capiba que estabeleceu sua posição de poesia na música, de ritmo na prosa de nossos brasis, tão unos e tão variados, tão puros e tão diversos.
O Sertão é um punhado de casos e uma só história. Torquato Neto desconcertou o Sul, mas, já sem gás, abriu a torneira pra que o gás não deixasse o oxigênio respirar. Morremos todos juntos e renascemos em sua poesia, concreta em meio à subjetividade nacional.
Nesse Viramundo eletrônico, Luiz Gonzaga sampleia o baião, urbaniza a caatinga, e os caranguejos fazem vaquejadas no terreno onde antes só havia canavial.
E quanto a nós? Vamos edificando a saga do caboclo de lança cibernético, nos versos de Bráulio Tavares, na cantoria austera de Pinto de Monteiro. Pois Zé da Luz não desconhece o Cordel do Fogo Encantado, nem estranha Silvério Pessoa, mas os recria quando Zé Limeira inventa Orlando Tejo e nos faz crer na impossibilidade de Cego Aderaldo ter sido obra, e arte, de um certo Jessiê Quirino...
O Nordeste é o que dele temos feito, e o que ele nos faz, dia-a-dia.

Esse texto é uma homenagem ao Projeto Baião de Viramundo, disco que reuniu os bons novos nomes da música pernambucana, numa releitura genaial da obra de Luíz Gonzaga.

Stellio Mendes

Vozes da Seca (Black Alien, Speed Freaks & Rica Amabis)
Cacimba Nova (Mestre Ambrósio)
A Dança da Moda (DJ Dolores)
Orélia (Otto)
O Fole Roncou (Nação Zumbi)
Dezessete e Setecentos (Mundo Livre S/A)
Assum Preto (Sheik Tosado)
Retrado de um Forró (Eddie)
De Juazeiro a Crato (Cascabulho)
Minha Fulô (Comadre Fulorzinha)
Juazeiro (Naná Vasconcelos & João Carlos)
Sabiá (Stela Campos)
Marimbondo (Chão e Chinelo)
Qui Nem Jiló (Andrea Marquee)
Acauã (Nouvelle Cuisine)
LG - Tu'Alma Sertaneja (Anvil FX & Lex Lilith)

Download: Baião de Viramundo


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eddie - Veraneio (2011)


Eddie (release) Olinda, 1989. Datar como de costume, como de costume, na Marim dos Caetés, quebrada-cenário de nossos manuais de história e chapações. “Lembra quando Nassau...? E daquela cachaça?” Duvido! Mas, recordo que foi neste ano que ouvi Pixies+Ramones+Dead Kenneds+frevo, entre outros pesos e bossas, ecoar na rua do Sol (salve o velho Pocolouco!). 
Todos liquidificados num só nome: Eddie. A verdade é que desde o fogo holandês que varreu a velha vila, não se via tanto calor, transformado agora em massa sonora. 
Olinda e seus arredores, ainda pré-manguebeat, traduzia sua pegada, seus tipos, seus desejos, em 3 acordes e muita maloqueiragem - o Original Olinda Style em seu legítimo cavalo... 
Mas as labaredas do incêndio, desta vez, não ficaram só por ali. Propagaram-se pelo mundo nas turnês da banda pelo Brasil e pela Europa (2005, 2006, 2007). Espalharam-se também através dos seus 4 registros em discos, tocados nos mais dignos sound-systems: Sonic Mambo (Roadrunner, 1998), Original Olinda Style (independente, 2002), Metropolitano (independente, 2006) e Carnaval no Inferno (independente, 2008) e, agora, o ensolarado Veraneio (2011).
Hoje, depois de várias formações, a Eddie é composta por Fábio Trummer (guitarra & voz), Urêa (percussão & voz), Andret (trompetes, teclados & samplers), Kiko (bateria) e Rob (baixo), contando sempre com a parceria especial de Erasto Vasconcelos, o verdadeiro farol de Olinda. Um escrete com sonoridade própria, cheia de grooves peculiaríssimos e experimentações inflamáveis. Capaz de incendiar até o mais frio dos terreiros do velho mundo, de levantar o fogo morto de ritmos quentes abafados pelo discurso da tradição, como o próprio frevo (o hit “Quando a maré encher” é frevo, meu bem!), entre outras façanhas infernais. Fica, então, o alerta: a Eddie é combustão certeira. Cuidado, principalmente se você brinca com álcool...

Download: Veraneio