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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Goma-Laca - Afrobrasilidades em 78 RPM (2014)




GOMA-LACA é um centro de investigações dedicado ao universo da música brasileira feita na primeira metade do século XX e registrada nos antigos discos feitos de cera de carnaúba e goma-laca que giravam a 78 rotações por minuto.


Em programas de rádio, artigos, seleções musicais, shows especiais e disco, a pesquisa propõe olhares e investiga contextos e contemporaneidades, buscando intercâmbio entre acervos e enfoques, épocas e gerações.

O álbum Goma-Laca – Afrobrasilidades em 78 rpm apresenta reinvenções a partir de temas do candomblé, capoeira, jongos, maracatus, emboladas e choro gravados originalmente entre as décadas de 1920 a 1950. Com direção musical e arranjos de Letieres Leite, participam do disco Karina Buhr, Lucas Santtana, Russo Passapusso e Juçara Marçal, acompanhados pelo contrabaixista Marcos Paiva,  Hercules Gomes ao piano,  Sergio Machado na bateria e o mestre de percussão Gabi Guedes. Sob a regência de Letieres, o grupo criou com os cantores arranjos de tons jazzísticos sobre ritmos afrobaianos, e tudo foi registrado ao vivo no Estúdio Traquitana, em São Paulo.

O repertório foi construído a partir de pesquisa de Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista e traz recriações de músicas originalmente gravadas em discos de 78 rotações, por intérpretes como Vanja Orico, Josué de Barros, Filhos de Nagô, Stefana de Macedo, Jararaca e Ratinho.  Entre as releituras de capoeira, embolada, canção praieira, coco-rojão, jongo, aparecem faixas como o tema “Batuque”, atribuído ao Quilombo dos Palmares, século XVII, e alguns dos primeiros temas de candomblé lançados em disco, como cantos para “Exu” e “Ogum”. Ao longo do disco, também revelam-se trechos e ecos de temas populares já relidos por nomes como Gilberto Gil, Tom Jobim, Milton Nascimento e João Donato. O CD inclui libreto com reprodução de todos os selos dos 78s originais e textos informativos sobre origens e caminhos das composições.

GOMA-LACA – Afrobrasilidades em 78 RPM (2014)

Concepção e pesquisa: Goma-Laca/Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista
Direção Musical de Letieres Leite
Produzido por Ronaldo Evangelista
Gravado no Estúdio Traquitana, SP, nos dias 10, 11 e 12 de fevereiro de 2014,
por Evaldo Luna, Décio 7 e Junior Zorato.
Mixado por Gustavo Lenza
Masterizado por Felipe Tichauer
Direção de Arte: Janaína Pinho e Henry Kage
Produção Gráfica: Valéria Hevia
Impressão: Indústria Gráfica Brasileira
Vídeos: Eugênio Vieira
RádioDocumentário: Biancamaria Binazzi
Produção Executiva: Agogô Cultural/Tatiana Dascal e Emilie Bloch
Realizado com o apoio do ProAC

Se você é professor, pesquisador, músico, jornalista e/ou representa um centro cultural, biblioteca, escola, centro de estudo, e quer uma cópia do disco, por favor escreva para disco@goma-laca.com

Download:Afrobrasilidades em 78RPM



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Juçara Marçal - Encarnado (2014)




Por Romulo Fróes

Juçara Marçal está longe de ser uma estreante. Já são mais de vinte anos de carreira iniciada com o grupo vocal Vésper, com quem lançou quatro discos, Flor D’Elis (1998), Noel Adoniran -180 Anos de Samba (2002), Ser Tão Paulista (2004) e Vésper na Lida (2013). Com o grupo A BARCA, Juçara lançou dois discos, Turista Aprendiz (2000) e Baião de Princesas (2002), além de participar do importante trabalho de pesquisa do grupo realizado em nove estados brasileiros entre 2004 e 2005 e que resultou no registro em áudio e vídeo de mais de trinta mestres de cultura tradicional, presentes nas caixas Trilha, Toada e Trupé e Coleção Turista Aprendiz. Ao lado de Kiko Dinucci, iniciou uma parceria que há alguns anos investiga e desenvolve um trabalho a partir das tradições afro-brasileiras. Dessa parceria já foram lançados Padê (2007) e os dois discos com o grupo Metá Metá (que além de Juçara e Kiko tem em sua formação o saxofonista Thiago França), são eles, Metá Metá (2011) e Metal Metal (2012). Depois dessa extensa carreira discográfica, Juçara Marçal se aventura agora em seu primeiro trabalho solo e o faz de maneira surpreendente. Encarnado (2014), mais do que um apanhado de sua longa trajetória artística, é quase uma nova estreia, apontando em uma direção arriscada e inesperada, inimaginável até para aqueles que acompanharam seu longo percurso até aqui.

Em sua definição espiritual, encarnado é o espírito que ocupa temporariamente um corpo humano. Encarnado também significa torna-se carne. Não por acaso, Encarnado, o disco de Juçara Marçal, tem seu repertório todo marcado pelo tema da morte. No entanto, mais que finitude, parece indicar uma busca por renovação, renascimento, um desejo por um "outro corpo", uma "nova carne". Logo na abertura do disco, pelos versos de O Velho Amarelo (Rodrigo Campos), Juçara reivindica: "Não diga que estamos morrendo, hoje não". Se a morte é inevitável, que seja encarada sem medo: "Vai, menina dos meus olhos, penetre entre os olhos, não há piedade, é só o fim, vai!". E que seja permitido escolher a hora e momento certos: "Quero morrer num dia breve, quero morrer num dia azul, quero morrer na América do Sul". O tema da morte vai aparecer de muitas maneiras ao longo do disco; de forma vingativa, em Damião (Douglas Germano): "Dá neles, Damião! Dá sem dó nem piedade e agradece a bondade e o cuidado de quem te matou"; pela chave romântica, em Queimando a Língua (Romulo Fróes / Alice Coutinho): "Não enxergo final, interrompo o tempo aqui em você"; e até mesmo em sua própria representação, em A Velha Capa Preta (Siba): "E a morte anda no mundo vestindo mortalha escura e procurando a criatura que espera condenação, quando ela encontra um cristão sem vontade de morrer".

Em Ciranda do Aborto (Kiko Dinucci) o tema aparece de maneira desconcertante, mais explícito, violento. Violência em nada apaziguada pela ambiguidade de seu título. Ciranda do Aborto já começa na faixa anterior Odoya (Juçara Marçal), uma vinheta que lhe serve quase como introdução. Mais do que introdução, serve de oração, uma benção à mãe Odoya: "Agô Yabá, bença mãe" e vai servir também como um pedido de ajuda para atravessar o momento tão doloroso descrito a seguir: "Passa na carne a navalha, se banha de sangue, sorri ao chorar, cobre o amor na mortalha pra ele não acordar, sente no fel deste beijo, o agouro da morte a se revelar". A letra prossegue, ganhando tensão: "vai despedaçado, vem meu bem querer, vem aqui pra fora, vem me conhecer" (aqui vale um adendo, não me lembro de outra vez na canção brasileira o tão repetido verso "meu bem querer", ter sido usado de modo tão agressivo e contraditório). O arranjo acompanha a tensão da letra e se desenvolve em um crescendo. Juçara cresce com ele. Amplificada pelo cavaquinho hitchcockiano de Rodrigo Campos, sua voz, qual lâmina, rasga os versos agudos da estranha ciranda de Kiko: "A ferida se abriu, nunca mais estancou, pra você se espalhar laceado, mas o chão te engoliu, toda a lida findou, pra você descansar no meu braço aos pedaços". Após um final caótico, que traduz musicalmente o horror do assunto tratado na canção, Juçara se desmancha, denunciando sua entrega à canção num suspiro invulgar.

Como suportar a audição de um disco construído a partir de tema tão profundo, quanto desagradável? A resposta está na voz de Juçara Marçal. Sob seu canto se revelam belezas escondidas e insuspeitas. E ele não cessa, um instante sequer. Juçara canta, mesmo quando não está cantando. Canta quando fala, na fala itamariana de E o Quico (Itamar Assumpção). Canta quando grita, o grito pós-tropicalista de Não Tenha Ódio no Verão (Tom Zé). Canta a "voz" dos (poucos) instrumentos presentes no disco, o sax e o pocket piano de Thiago França, a rabeca de Thomas Rohrer, mas principalmente, Juçara canta as guitarras de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos. A polifonia rítmica e as melodias fraturadas (des)construídas por Kiko e Rodrigo, que desestabilizam a harmonia, fazendo cambalear a canção, encontraram no canto de Juçara o elemento catalisador perfeito na linguagem musical inovadora e original que vêm desenvolvendo em dupla há algum tempo, especialmente com o Passo Torto, grupo do qual fazem parte ainda, Marcelo Cabral e Romulo Fróes. De um lado, os ruídos, a sujeira, os riffs de influência punk de Kiko. De outro, as melodias elegantes, precisas, fruto da formação violonística de Rodrigo. Essa junção de universos musicais tão distantes, aliada à profunda influência do samba nos trabalhos individuais de cada um, vem construindo um vocabulário desconhecido, novo na música brasileira. Pela voz de Juçara, as conquistas de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos atingem um outro patamar. Lembro de Torquato Neto e sua célebre fala: "Um poeta não se faz com versos, é o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela." Seguindo a cartilha de Torquato, ao discorrer sobre a morte, Juçara nunca esteve tão viva. Ao se reinventar, não só abriu novas possibilidades a si mesma, mas à própria música brasileira. Seu disco é lançado em um época em que a canção popular perdeu há tempos a importância na formação cultural do nosso país. Talvez seja muito menos ouvido e discutido do que de fato Juçara e o Brasil mereciam. Mas servirá desde já e por muito tempo ainda, de antídoto para o discurso nostálgico e paralisante dos profetas do fim da canção. Estes deveriam prestar atenção ao que diz em alto e bom som Juçara Marçal: Não diga que estamos morrendo. Hoje não!

Download: Encarnado