Mostrando postagens com marcador Tom Zé. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tom Zé. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Tom Zé - Tribunal do Feicebuqui EP (2013)




Na Irará dos anos 1940, o menino Antônio José Santana Martins ouvia das tias comunistas a recomendação, ao sair de casa com dinheiro no bolso para gastar em uma guloseima qualquer: “Pode comprar gasosa (refrigerante), mas só guaraná. Não tome Coca-Cola de jeito nenhum, porque ela é o capitalismo”. Em março de 2013, o conselho voltou a ecoar na cabeça do moleque, agora um respeitável senhor de 76 anos (nem tão respeitável, nem tão senhor, ainda um tanto moleque) conhecido como Tom Zé. Um comercial da Coca-Cola do qual ele é o narrador gerou uma enxurrada de críticas nas redes sociais que o tachavam de “vendido”, “americanizado”, “traidor”, “velho bundão” e o acusavam, dizendo que ele agora, em vez do samba, “tá estudando propaganda” (uma referência a seu clássico disco “Estudando o samba”).
Tropicalisticamente digeridos, os xingamentos foram recortados e colados nos versos de “Tom Zé mané”, uma das faixas de “Tribunal do feicebuqui”, EP com cinco faixas (leia trechos abaixo) no qual o artista lança seu olhar sobre a polêmica — disponível a partir de amanhã em http://www.tomze.com.br/. Feito com nomes da nova geração como Emicida, Tatá Aeroplano, O Terno, Filarmônica de Pasárgada e Trupe Chá de Boldo, o EP é o ponto de partida de um álbum completo que deve sair entre agosto e setembro (quando será editado também um compacto em vinil de “Tribunal do feicebuqui”).
Apesar de nascer de um movimento de reação às críticas, o disco não é uma resposta raivosa a elas, ou mesmo uma resposta, como esclarece Tom Zé:
— Todas as músicas são relacionadas à literatura da internet surgida dessa polêmica, seja falando bem ou mal de mim, tudo tratado da mesma forma. Prezo as críticas e os elogios com o mesmo valor, não acho que os comentários negativos sejam patrulha ou nada parecido.
Inicialmente, porém, Tom Zé não viu nas críticas (e nas defesas e ponderações surgidas num segundo momento) estopim para criação. No dia 8 de março, ele escreveu em seu blog, na sua primeira manifestação sobre o caso: “Perco o sono por causa do assunto”. Profundamente chateado com a repercussão, ele ouviu a sugestão do jornalista Marcus Preto, que prepara a biografia do compositor: por que não transformar aquilo tudo num disco, um novo “Imprensa cantada” (álbum de 2003 feito num procedimento usado em diversos momentos de sua carreira, de canções criadas a partir de assuntos do momento, quase recortes de notícias)?
A ideia fermentou, e na madrugada seguinte, entusiasmado, Tom Zé conversou com Marcus sobre a possibilidade de convocarem músicos jovens para fazer com ele o disco.
— Liguei para quem já havia me dito que adorava Tom Zé ou que eu achava que podia ter sido influenciado por ele — conta Marcus. — Marcelo Segreto (da Filarmônica de Pasárgada), por exemplo, estava compondo uma música chamada “Estudando Tom Zé” quando o chamei. E me mostrou um funk carioca que tinha feito a partir da visão de Tom Zé sobre o gênero.
O numeroso grupo de artistas ocupou o estúdio que Tom Zé mantém num apartamento do prédio onde mora, transformando o local numa usina de criação. De espírito familiar, ressalta o baiano:
— Todo dia, todo mundo aqui, parece aquela casa que tem 15 filhos e 18 netos — brinca Tom Zé. — Todo mundo dando penada em tudo. Você sabe como é a convivência com os jovens: se a gente pensa que é sabido, tá fodido. Tem que estar ciente de que eles sabem demais. Mesmo que seja para discordar deles.
Os arranjos ficaram nas mãos dos “meninos”, com “penadas” de Tom Zé, que também encomendou a eles músicas (dando os motes) ou propôs parcerias. O EP começa com os xingamentos de “Tom Zé mané”, de Segreto, Tatá Aeroplano, Gustavo Galo (da Trupe Chá de Boldo), e Emicida.
O disco segue com “Zé a zero”, de Tom Zé, Segreto e Tim Bernardes (O Terno), que cita diretamente a polêmica (“A copa aqui co qui cale?/ É coco colá/ Aqui copa coca acolá/ Fazendo propaganda do Tom Zé”). Ao comentar a música, Segreto revela um tanto da mecânica do encontro com o compositor de Irará:
— A letra que mandei era: “Ô rapá qualé que é/ Era a Copa Coca-Cola fazendo propaganda pro Tom Zé”. Ele musicou pegando umas sílabas, repetindo, criando outros sentidos com as aliterações. Seu modo de trabalhar é muito livre.
“Taí”, que tem uma batida estilizada do tamborzão do funk carioca, era um jingle que Tom Zé compôs para o guaraná Taí (da Coca-Cola, aliás), quando trabalhou na agência de publicidade DPZ por seis meses. A melodia é a mesma de “Ta-hi”, marchinha de Joubert de Carvalho que se tornou clássica na voz de Carmen Miranda. Ela ganhou versos adicionais de Segreto.
Tim Bernardes compôs “Papa Francisco”, que canta com Tom Zé. Trata-se de um bem-humorado pedido de perdão à Sua Santidade. O pecado? “O povo, querida, com pedras na mão/ Voltadas contra o imperialismo pagão”. Num arranjo à la Mutantes, referências à tropicalista “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso (“Já não penso mais em casamento/ Mas se tomo Coca-Cola acho que estou me vendendo”).
Acanção “Irará iralá”, que fecha “Tribunal do feicebuqui” (nome extraído do rap que Emicida faz em “Tom Zé mané”), é a que tem a ligação menos óbvia com o caso. Num arranjo que bebe nas trilhas western spaghetti de Ennio Morricone, a faixa, só de Tom Zé, lista nomes de personagens da cidade, o cenário que formou o artista (“Renato, filho de dona Ceci/ Não fosse ele eu não tava aqui”).
— Na voz das meninas ficou uma coisa estranhíssima, um iraraense quebra-língua, meio paulista, meio imitando sertanejo — diz Tom Zé.
Irará aparece em muitos versos dos novos parceiros de Tom Zé. Além disso, durante a confusão gerada pela campanha para a Coca-Cola, o artista decidiu doar o cachê do comercial para a banda da cidade.
— Sonho fazer o lançamento do disco lá, com todos os músicos que participaram dele.
“Irará iralá” também faz a ligação com o álbum de dez faixas que o artista prepara com o mesmo grupo de músicos — que tem ainda Daniel Maia comandando a mesa de som. Ela é a única que ficará no disco, descrito por Tom Zé como a “parte freudiana” da discussão em torno do caso Coca-Cola.
— Sou eu no inferno em que sou duplamente atacado pelo interesse de lealdade aos ideais e pelo interesse por fama, beleza, vida luxuosa — explica.
Várias canções do futuro disco serão recriações de músicas inéditas encontradas por Tom Zé numa fita de 1972. Ele as entregou aos jovens parceiros para que eles trabalhassem nelas à vontade. Só uma é de 1982, “Pour Elis”, que o baiano fez sobre um texto de Fernando Faro para Elis Regina.
— Milton Nascimento deve cantar essa — adianta.
Há ainda uma que Tom Zé pediu a Segreto, “Guga na lavagem”, uma carta a seu irmão.
— Passei 30 anos na mão de analistas, os psiquiatras de doido manso. Augusto sempre aguentou a barra sem isso, mas ano retrasado teve uma fossa muito grande. Por uma herança, a família brigou com ele, que foi se isolando, sem se cuidar, sem sair... Falei com Segreto, que me deu uma letra linda. Mostrei a música para Guga, que imediatamente se animou, falou que estará na próxima festa da lavagem de Irará.
O parceiro Segreto resume a ideia que atravessa “Tribunal do feicebuqui”, o EP e o álbum.
— A questão não é defender ou atacar Tom Zé. É incorporar essa tensão entre crítica e aceitação.


Download: http://www.tomze.com.br/

terça-feira, 1 de março de 2011

Tom Zé - Coletânea Baixa Funda

 


Nascido em uma família abastada por conta de um bilhete premiado de loteria, Tom Zé passa a primeira infância no sertão baiano na sua cidade natal Irará. Depois transfere-se para Salvador para seguir estudos ginasiais. Mais tarde, ele diria que sua cidade natal era "pré-Gutenberguiana", pois sua música era transmitida por comunicação oral.
Adolescente, passa a se interessar por música e estuda violão. Tem alguma experiência tocando em programas de calouros de televisão nos anos 1960, e acaba entrando para a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, que tem entre seus professores na época Ernst Widmer, Walter Smetak e o dodecafonista Hans Joachim Koellreutter.
Na mesma época, se alia a Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia no espetáculo Nós, Por Exemplo nº 2, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Com o mesmo grupo, vai a São Paulo encenar Arena Canta Bahia, sob a direção de Augusto Boal, e grava o álbum definidor do movimento Tropicalista, Tropicália ou Panis et Circensis, em 1968.
Em 1968, leva o primeiro lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com a canção "São Paulo, Meu Amor".
Passou a década de 1970 e 1980 avançando ainda mais seu pop experimental em álbuns relativamente herméticos, sem atrair a atenção do grande público. No final dos anos 1980, é "descoberto" pelo músico David Byrne (ex-Talking Heads), em uma visita ao Rio de Janeiro, que lança sua obra nos Estados Unidos, para grande sucesso de crítica. Lentamente sua carreira vai se recuperando e Tom Zé passa a atrair platéias da Europa, Estados Unidos e Brasil, especialmente após o lançamento do álbum Com Defeito de Fabricação, em 1998 (eleito um dos dez melhores álbuns do ano pelo The New York Times). Tom Zé compôs, na década de 1990, música para balés do Grupo Corpo.
Em 2006 foi lançado o filme Fabricando Tom Zé, um documentário de Décio Matos Jr, sobre a vida e obra do músico.


Coletânea:


Você Gosta?
Jeitinho Dela
Irene 
Qualquer Bobagem
Passagem
Ma Dá, Me dê, Me Diz
Jimmy Renda-se
Menina Jesus
Correio da Estação Brás
A Volta de Xanduzinha (Maria Mariô)
Na Praia do Sucesso


São Paulo, Meu Amor
Quero Sambar Meu Bem
Sabor de Burrice
Nave Maria
Frevo
Menina Amanhã de Manhã
Senhor Cidadão
Todos Os Olhos
Quando Eu Era Sem Ninguém
Augusta, Angélica e Consolação
Botaram Tanta Fumaça
O Riso e a Faca
Lá Vem a Onda
Guindaste a Rigor
Distância
Dulcinéia Popular Brasileira


Download: Tom Zé - Coletânea Baixa Funda