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domingo, 10 de maio de 2015

Tulipa Ruiz - Dancê (2015)



Se em 2010 me perguntassem o que eu levaria para uma ilha deserta, a resposta seria um disco que acabava de ser lançado sob a classificação de “pop florestal”, de uma cantora que gritava feito Tetê Spindola e que me fazia querer andar com ela pelas ruas de São Paulo. A resposta à hipotética questão ainda seria a mesma hoje. Efêmera nunca deixou de ser meu disco favorito e, quando veio Tudo Tanto (2012), eu fechei os olhos como quem espera um baque, temeroso de que Tulipa Ruiz me decepcionasse. Cruzei os dedos ao dar o play, mas É, primeira faixa do álbum, já mostrou que ela continuava sendo mesma, mesmo estando diferente. Em Efêmera, nenhuma música é de se jogar fora e o disco é um acerto do começo ao fim, enquanto Tudo Tanto, que também veio com 11 faixas, tem apenas uma questionável. (Não ruim. Questionável).

Em março do ano passado, a cantora paulista lançou o single Megalomania, que poderia ter sido a música do carnaval se Lepo Lepo não estivesse tão em alta – e se o mundo fosse mais justo. Era um anúncio do que seria Dancê, lançado neste mês, e era também uma pequena amostra de uma Tulipa ainda mais festeira. Como era de se esperar, o álbum é dançante, do tipo que você não iria deixar tocando em uma festa, mas escolheria algumas faixas para animar, intercalando com A Cor do Som (Zanzibar), Kilario (Di Melo), Haja Amor (Luiz Caldas), Chega Mais (Rita Lee) e até, quem sabe, assim só para ousar, Conga (Gretchen). Tulipa Ruiz já abre o disco com as cordas aquecidas, enquanto grita “Começou!” em Prumo. Ao ouvinte, resta dançar.

Dancê é fruto de mais uma parceria com seu irmão e produtor Gustavo Ruiz, e nasceu de uma temporada de reclusão da banda no interior de São Paulo, sem celulares e internet, o que parece ter feito com que o resultado fosse ainda mais autêntico. Os instrumentos de sopro estão mais presentes e, somados aos teclados, definem a discoteca de Tulipa no estilo dos anos 80. É, a faixa que abre Tudo Tanto, pode ter sido o prenúncio de Dancê, já que seu clima pop rock se repete agora em Jogo do Contente (não tão grudenta como as demais, essa é aquela música para aproveitar para ir ao banheiro, mas continuar dançando), Elixir e Expirou (Gal Costa, é você?). Virou é quase uma festa de família. Para a faixa foram convidados o cantor paraense Felipe Cordeiro e seu pai, o guitarrista Manoel Cordeiro, para se juntar a Tulipa, Gustavo e seu próprio pai, Luiz Chagas.


Tulipa sabe escolher suas parcerias. Logo na abertura de Efêmera, na faixa que dá nome ao disco, a cantora é acompanhada por Céu, que empresta sua voz para suspirar “vou ficar mais um pouquinho”. Em Víbora, no segundo álbum, Criolo participa como um personagem que ri e respira forte enquanto Tulipa fica encarregada de gritar uma canção-xingamento. Em Dancê, ela adapta seu trabalho ao que o convidado se sente mais confortável a fazer – e nada bem na praia de cada um deles. Aparece João Donato dando ar de bossa nova a Tafetá, de onde sai o título do disco, quando ela sussurra “danse avec vouz”. Chamar Kassin para participar de Físico, uma balada à la Frenéticas, foi uma boa ideia - se tivesse chamado Lucas Santanna, a festa ficaria ainda melhor. Quem escuta Algo Maior, a faixa que encerra Dancê, pela primeira vez e sem se informar que estão presentes ali os integrantes de Metá Metá, pode ficar confuso e se perguntando: essa é a voz de Juçara Marçal? Esse é o barítono de Thiago França? Essa é a guitarra de Kiko Dinucci? Sim, são. As vozes de Tulipa e Juçara se encaixam tão perfeitamente, que parecem ser uma só. De tão natural que a vocalista do Metá está na canção, você esquece quem é participação especial e quem é que está lançando o CD.

Além dos convidados que estiveram no disco, marcam presença silenciosa na festa de Tulipa, o gingado de Sandra de Sá, Paralamas do Sucesso e muitos outros que são a cara da música nacional dos anos 80. Proporcional é um exemplo disso. Aquela Tulipa fofinha e romântica talvez só chegue ao dancefloor na melosa Oldboy, uma faixa para os que esperam canções de amor ao estilo de Do Amor e Só sei dançar com você. Mas morre aí. Em Reclame, Tulipa mostra um senso de humor inédito em seu trabalho. Quem jamais a imaginou cantar “trato azedume e mau-olhado / quebreante, vício / trato treta de trabalho / trabalho com amarração”? Quem já está acostumado às loucuras de Rafael Castro e Tatá Aeroplano não vai estranhar essa versão party harder de Tulipa Ruiz. Quem ainda espera versos tristes, é melhor abrir uma cerveja e ir para a pista, porque Tulipa já está dançando.

DOWNLOAD: DANCÊ
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Pedro Philippe é jornalista da CARIRI Revista

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Tulipa Ruiz - Tudo Tanto (2012)




Por Mauro Ferreira, do Blog Notas Musicais 


Parafraseando a letra de "Ok" (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz), delícia pop do segundo CD de Tulipa Ruiz, a cantora e compositora paulista  tem - enfim -  "tudo para ser aquilo tudo que todo mundo espera". Eleita a sensação musical de 2010 pela mídia robotizada por conta de superestimado primeiro álbum, Efêmera , a artista cumpre (e supera) as expectativas inevitáveis do segundo disco, Tudo Tanto, nas lojas a partir de 30 de julho de 2012 em edição independente.

A artista refina e encorpa  seu som - provável efeito do conforto financeiro proporcionado pelo patrocínio obtido dentro do projeto Natura Musical - sem quase nunca perder a leveza e o espírito lúdico de sua música, trunfos de seu som. Nos momentos em que endurece e perde a ternura, como na venenosa "Víbora" (Tulipa Ruiz, Criolo, Caio Lopes, Gustavo Ruiz e Luiz Chagas), faixa de tom bluesy em que sobressai a guitarra de Luiz Chagas, a cantora cresce e aponta outras direções musicais, ciente de que tudo está em movimento, como poetiza nos versos de "É" (Tulipa Ruiz), faixa eleita para iniciar os trabalhos promocionais do CD produzido pelo mano Gustavo Ruiz.

Ciente de que é preciso se movimentar para não virar clone de si mesmo, Tulipa abre parcerias, experimenta sonoridades e explora as várias possibilidades de sua voz neste disco gravado em abril nos estúdios Na Cena (SP), Cia. dos Técnicos (RJ) e YB (SP). Os arranjos de cordas e madeiras assinados por Jacques Mathias contribuem para a leveza de temas como "Quando Eu Achar" (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz) - outro hit em potencial, arrematado com coro formado por 16 vozes masculinas - e se revelam inusitados, impedindo que Tudo Tanto soe igual aos zilhões de discos gravados com músicos requisitados para tocar em nove entre cada dez discos do universo indie pop nativo. Mas nem tudo são flores em Tudo Tanto. Em "Like This", primeira parceria de Tulipa com Ilhan Ersahin, integrante da banda norte-americana de trip-hop Wax Poetic, a artista discute a relação com certa contundência e certa impaciência em primoroso arranjo que flerta com a estética do universo indie. Na sequência, "Desinibida" - primeira parceria de Tulipa com Tomás Cunha Ferreira, músico do grupo português Os Quais - esboça clima bossa-novista que logo se dilui pelas experimentações orquestradas pelas cordas conduzidas pelo recorrente Jacques Mathias. Em sintonia com o início que remete ao clima suave da Bossa Nova, "Desinibida" é a faixa que concentra o núcleo dos músicos cariocas do disco - formado por Kassin (guitarra, lap e steel), Stephane San Juan (bateria), Alberto Continentino (baixo) e Donatinho (teclados). O quarteto fantástico também está reunido em "Script" (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz), faixa de menor poder de sedução. A leveza dá novamente o ar da graça em "Dois Cafés" (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz), outra faixa de grande teor pop, gravada por Tulipa com a voz e a guitarra slide de Lulu Santos.

A letra de "Dois Cafés" prega justamente a leveza como o tempero capaz de adoçar as adversidades cotidianas. De início, "Dois Cafés" dá a impressão de ser canção tribalista - pela harmonização das vozes, similar à do trio formado por Marisa Monte com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown - mas logo o suingue de Lulu dá o tom da faixa. Música dançante, "Expectativa" (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz) reitera a veia pop de Tulipa, bastante aguçada neste álbum. Em contrapartida, "Bom" (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz) cativa mais pelo criativo arranjo de cordas e madeiras - assinado pelo recorrente Jacques Mathias - do que pela música em si. No fim, com "Cada Voz" (Tulipa Ruiz), música já presente em alguns shows da turnê do álbum Efêmera, Tudo Tanto abre caminho para experimentações vocais que confirmam a segurança dessa cantora de voz aguda que cospe veneno na impactante "Víbora". Entre a flor e o espinho, Tulipa Ruiz desabrocha de vez com ótimo segundo disco que tem tudo aquilo que todo mundo espera.


Download: Tudo Tanto


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Tulipa e Nação Zumbi (Rock In Rio 2011)


A troca se deu com lucros para ambas as partes. De um lado, a banda pernambucana Nação Zumbi injetou um bocado de testosterona nas músicas "de menina" de Tulipa Ruiz. E era divertido ouvir Jorge du Peixe, vocalista da Nação, cantando versos como "um bordado de renda, de xita, filó", de "Brocal Dourado".
Do outro lado, Tulipa revelou uma doçura inesperada no repertório pauleira da banda --formada 100% por homens-- que trouxe para o Brasil, com Chico Science, o último movimento que tivemos na MPB, o manguebeat.
Ela fazia vocais agudíssimos, adocicando sucessos da Nação, como "Blunt of Judah" e "Manguetown".

A fusão funcionou também no terreno instrumental, e isso ficava mais visível na junção das guitarras de Lucio Maia, da Nação, e de Gustavo Ruiz e Luiz Chagas (guitarristas, irmão e pai de Tulipa).
Quem ouviu "Ainda Bem", o primeiro single do próximo álbum de Marisa Monte, em que o power trio da Nação está envolvido, chega à conclusão que Tulipa soube aproveitar muito melhor do que a veterana a força fundamental da banda pernambucana.
O público já estava aquecido e, como hoje é sábado e ninguém trabalha, todo mundo chegou cedo. Tulipa e Nação tiveram plateia lotada, o que deu ainda mais clima ao show.

WebRip Faixa a Faixa

Download: Tulipa e Nação



sábado, 14 de agosto de 2010

Tulipa - Efêmera (2010)


Talvez Tulipa Ruiz não saiba (deve saber), mas dentre os significados da palavra “efêmero”, há um, especificamente para os estudos botânicos, em que é chamada efêmera a flor que abre e fenece no mesmo dia.

Efêmera também é o nome do primeiro álbum de Tulipa, e talvez haja (deve haver) uma referência no nome do disco à miríade de cantoras na atual cena musical brasileira. São tantas e tantas cantoras surgindo que a música, em geral já bem descartável nesse início de década, fica ainda mais difícil de se manter por muito tempo nos ouvidos de todos. Se encararmos o nome por esse sentido, o de passageira, a decisão de chamar um primeiro disco de Efêmera é ao mesmo tempo bastante consciente e ousada. Uma espécie de desdém calmo da atual situação da música.

Mas esse sentido é (deve ser) mais uma viagem de blogueiro que quer ver coisa demais onde não tem. Em entrevista à TPM, Tulipa diz: “A palavra [Efêmera] em si é mais usada no sentido de momentosa, atual, do que de meramente passageira. Até lembra Vinícius, ‘infinita enquanto dura‘”. Pronto. A resenha pode acabar por aqui, porque é exatamente isso que Tulipa Ruiz entrega no seu primeiro disco: música pop com ótimos arranjos, com os olhos no presente, sem esquecer do passado e sem preocupação com o futuro. E, quando toca, o disco é aquilo mesmo: infinito enquanto dura.

Exagero? Talvez um pouco, mas me parece claro que a sensacional voz de Tulipa se eleva como a vaca profana de Caetano, um pouco acima da manada de cantoras que avança anualmente sobre a música brasileira. Cheia de barulhinhos bons, cantando o cotidiano paulistano, Tulipa é ousada quando usa a sua voz, causando um estranhamento gostoso de ouvir, mais perceptível na faixa-título, em Pedrinho e em Sushi. Mas, ao mesmo tempo, lado a lado com esse certo estranhamento, a voz de Tulipa é o de mais agradável que aconteceu na música nacional este ano, e a cada canção o ouvinte não tem dúvida: essa sabe o que faz com a voz.

Com participações especiais como as de Negresko Sis (na faixa título), Kassin (no ótimo baixo de Brocal Dourado), o irmão Rodrigo e o pai Luiz Chagas, além de Maryana Aydar, Tiê, Stéphane San Juan, entre vários outros (inclusive na arte gráfica do encarte), Efêmera não é um disco definitivo, mas um formidável começo. Com canções ótimas como Efêmera, Pontual, Sushi, Às Vezes e a imbatível Brocal Dourado, resta esperar e ver o que vai se tornar Tulipa Ruiz.

Mas fica a dica: tulipas não são dessas flores efêmeras.

Download: Efêmera