segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mombojó - Alexandre (2014)



Quando surgiu, há 13 anos, os integrantes do Mombojó ainda eram adolescentes. A média de idade girava em torno dos 17. Há grupos que, à medida que seus membros vão amadurecendo, o pulso criativo se enfraquece, o som produzido não empolga, as engrenagens se enferrujam. Com o novo álbum Alexandre, a banda mostra que o amadurecimento tem feito bem à sua música.

O quinto disco do Mombojó é um dos melhores do hoje quarteto, formado por  Felipe S (voz e guitarra), Chiquinho (teclado e sampler), Marcelo Machado (guitarra) e Vicente Machado (bateria e sampler). O produtor e amigo dos rapazes Missionário José tem se ocupado com o contrabaixo, visto que o antigo dono do posto, Samuel Vieira, deixou a banda para trabalhar como ator. Atualmente, ele interpreta o personagem Igor, na novela Geração Brasil (Globo, às 19h). "O baixo no Mombojó normalmente transita entre a sua função convencional e outras funções texturais, busquei explorar um pouco isso. E dividir essa função no disco com Felipe e com Dengue é sem dúvida uma honra", comenta Missionário.

Alexandre é daqueles discos que podem até causar certo estranhamento na primeira audição. Mas vai se tornando cada vez mais interessante, inspirado e convidativo. Além do Stereolab, há influências de Radiohead, Tortoise, Justin Timberlake e Cidadão Instigado. As participações especiais ficaram por conta de China, da cantora paulista Céu, Pupillo e Dengue (respectivamente, baterista e baixista da Nação Zumbi), Pedro Mibieli (violino) e Vitor Araújo (piano) participam do álbum.

Na entrevista, Marcelo Machado fala sobre a ainda mais presente influência do Stereolab (banda britânica de post rock) ainda mais presente no disco. A vocalista, Laetitia Sadier, canta e divide com os integrantes do Mombojó a autoria da canção Summer long -, do processo de composição e produção, da influência que São Paulo exerce sobre eles e do Ocupe Estelita. A faixa Me encantei por Rosário foi composta a partir de textos do movimento Direitos Urbanos, que discute problemas relacionados à ocupação dos espaços urbanos.

Alexandre soa como o disco mais maduro e conceitualmente mais consistentente da Mombojó. De que forma o direcionamento musical do novo disco surgiu? Foi algo intencional, com vocês conversando e dizendo: "esse disco vai soar assim, com tais elementos" ou foi algo mais natural?
Nosso processo de criação é sempre muito espontâneo em relação às composições, temos sempre a preocupação de não nos repetirmos nas estruturas musicais. Nesse disco em especial, tivemos a intenção de sair do modo convencional de fazer discos. Nós nos permitimos fazer um álbum que fosse mais uma experiência sonora incluindo músicas instrumentais, textos incidentais, músicas usando o Pro Tools como ferramenta instrumental e outras coisas que saem um pouco do padrão. Nos inspiramos muito nos discos do Stereolab neste sentido.

Apesar de sutil, a influência do Stereolab sempre apareceu no trabalho de vocês. Neste disco ela aparece mais. Teria sido por conta da participação da cantora Laetitia Sadier?
Nós sempre tivemos uma grande influência do Stereolab no nosso som e na nossa carreira em geral, com certeza a participação de Laetitia nos inspirou e nos motivou absurdamente nesse disco.

De que forma a morada São Paulo influenciou e tem influenciado na maneira como trabalham a carreira e suas composições?
Ao meu ver São Paulo tem nos influenciado mais em como trabalhamos nossa carreira, por nos proporcionar um ritmo mais intenso de shows e por oferecer um grande leque de possibilidades relacionadas a outras atmosferas do trabalho como artistas. Neste momento eu estou morando em Recife e é de onde tem vindo grande parte da minha inspiração musical para compor.

O que a Mombojó pensa sobre o movimento Ocupe Estelita?
Nós somos completamente a favor do movimento, fazemos parte dessa geração que está vivendo uma retomada das manifestações em que o povo recifense luta para ter voz ativa nas questões envolvendo a nossa cidade. É um absurdo o que estamos vivendo naquela área e estamos talvez no momento mais político da história do Mombojó por conta de tudo que vem acontecendo em Recife e no país.

Download:Alexandre


terça-feira, 15 de julho de 2014

Afroelectro - Mocambo EP (2014)



Formada em 2009, a banda Afroelectro cria a sua identidade sonora revisitando o continente africano através do contato com artistas e a sua produção sonora mais comtemporânea, da vivência direta de alguns integrantes da banda com músicos de lá e da experiência de habitar uma grande metrópole como São Paulo, que tem sido a grande catalisadora da cultura brasileira e do mundo. É o lugar onde o côco e a embolada dialogam com o hip-hop, onde o rock encontra o candomblé, onde a tradição encontra o novo. A cultura brasileira é encontrada com muita força na música do Afroelectro, principalmente nos versos e nas partes cantadas. Cantos de cultura popular de diferentes regiões do país como os cantos de Tambor de Crioula de Taboca do Maranhão (trazidos para São Paulo pelo Pai Euclides da Casa Fanti-Ashanti), versos de Cavalo-Marinho, originários de Nazaré da Mata (Pernambuco), cantos de capoeira e de candomblé são colocados em evidência nas músicas do grupo.

Em 2012 o Afroelectro lançou seu primeiro disco na choperia do SESC Pompéia em São Paulo, e pouco tempo depois é convidado para repetir esse show na Mostra da Prata Casa (projeto que contempla as melhores apresentações do ano) no mesmo espaço. O álbum é resultado de um ano de trabalho entre horas de estúdio e apresentações ao vivo, dessa forma criando uma sonoridade diferenciada, rica em experimentos rítmicos e texturas musicais surpreendentes, mas ao mesmo tempo acessível e dançante. Produzido por Sérgio Machado e Michi Ruzitschka, o disco conta ainda com as participações de Chico Cesar, Kiko Dinucci, Siba, do multiinstrumentista Antônio Loureiro além dos percussionistas Felipe Roseno e Romulo Nardes do grupo Bixiga 70.

Também foi convidado para criar a trilha sonora do espetáculo “YEBO” da companhia de dança contemporânea Gumboot Dance Brasil e executá-la ao vivo nas apresentações. Em 2014 fez parte de dois espetáculos em homenagem ao instrumentista Paulo Moura em São José do Rio Preto e no espaço Tom Jobim no Rio de Janeiro e tocou no Sofar Secret Festival em São Paulo. Ainda em julho deste ano o grupo lançará seu EP novo “Mocambo” com cinco faixas inéditas.

Afroelectro é composto pelos musicos  Sérgio Machado (bateria, teclados, programações e vocais), Michi Ruzitschka (guitarras e vocais), Meno del Picchia (baixo-elétrico e vocais), Mauricio Badé (percussão e vocais) e Denis Duarte (loops, percussão e vocais).

Download: Mocambo

domingo, 13 de julho de 2014

Charlie e os Marretas - Charlie e os Marretas (2014)



No dia 23 de maio, o Auditório Ibirapuera, em São Paulo, foi palco do lançamento oficial do primeiro disco da banda Charlie & Os Marretas, que traz nove faixas inteiramente compostas pelo próprio grupo e inspiradas na dualidade estética existente entre a nova e a velha escola do funk. As composições do disco revelam influências que contemplam ícones da velha guarda do gênero como James Brown, Parliament e The Meters, além do hip hop de Afrika Bambaataa e DJ Premier, que convivem com o tempero das novas gerações do jazz-funk e do hiphop, representadas por RH Factor, Madlib e J Dilla, além de ritmos contemporâneos dançantes como o reggeaton e o dubstep.

A dualidade estética também foi explorada na própria produção do disco, que conta com algumas faixas gravadas ao vivo e outras gravadas instrumento por instrumento, estendendo o processo criativo à fase de pós-produção ao introduzir elementos eletrônicos como sampler e MPC nas composições. Assim, o disco transmite a essência do Charlie & Os Marretas, que se define como uma banda de funk avessa à abordagem purista do gênero e mostra a cara da nova geração do funk autoral brasileiro: moderno e cheio de groove, com um pé na inovação e o outro nas pistas dos grandes bailes de antigamente. Formada em 2009, a banda foi inspirada pela sonoridade e atitude do funk dos anos 70. Através de uma vasta pesquisa do gênero e de seus derivados, aliada aos anos de estrada, o Charlie & Os Marretas desenvolveu um estilo próprio aplicado na gravação do disco. O resultado é uma combinação voltada para as pistas, que remete aos saudosos tempos dos bailes black.

A produção do disco é assinada pela própria banda e por Gui Jesus Toledo, que gravou e mixou oprojeto no estúdio CANOA. As gravações contaram com participações especiais nos metais deNatan Oliveira (trompete e trombone), músico de apoio da banda que trouxe a experiência adquirida em trabalhos com a Banda Black Rio, Tony Tornado e Elza Soares, além do já antigo parceiro de estrada Vinicius Chagas no sax tenor e Rafael Molina no sax alto, tenor e EWI. Finalizado em março deste ano, o disco foi masterizado no Estúdio El Rocha por Fernando Sanches e será disponibilizado para download gratuito a partir do dia 15 de maio. Além do formato digital, o disco também terá suas versões em CD e LP, graças à parceria entre os selos Brasilis Grooves Records e RISCO – coletivo independente integrado pelo Charlie & Os Marretas e os grupos O Terno, Memórias de Um Caramujo, Os Mojo Workers, Noite Torta, Luiza Lian, Grand Bazaar e Caio Falcão. O esmero na produção também contempla o produto físico final, que conta com arte de Lewis Heriz, artista inglês que já assinou capas de discos para várias gravadoras estrangeiras como Now-Again, Stones Throw, Tru-Thoughts e Soundway Records, além de diversas capas de filmes.

Formada por Charles Tixier (bateria, MPC e voz), Gabriel Basile (percussão e voz), André Vac (guitarra, voz e composições), Guilherme Giraldi (baixo e composições) e Tomás de Souza(teclados e voz), nos shows a banda agora conta com Filipe Nader (sax alto e barítono) e Natan Oliveira (trompete e trombone). Os cinco anos de atuação do Charlie & Os Marretas na cena paulistana renderam a consagração da banda entre os amantes de performances intensas e dançantes, ao estilo dos bailes de antigamente. Nessas ocasiões, o repertório da banda trazia uma série de clássicos do funk de James Brown, Tim Maia e The Meters, até pérolas garimpadasda Banda União Black, Ripple e Blackbyrds. Após esse tempo de estrada, o grupo apostou nas composições próprias e aperfeiçoou um repertório autoral vibrante, já apresentado em casas de show como Clash Club (Vai Music Trends), The Week (Inner Multi Art – Palco Red Bull Music Academy), EcoHouse (Navegroove), Tapas Club (Maracutaia), Casa do Mancha, Sarajevo Club,Berlin, Puxadinho da Praça, Mundo Pensante, Serralheria, Auditório Ibirapuera e no Coala Festival 2014.

Em paralelo ao trabalho autoral, o grupo atua como banda de apoio e faz a direção musical do cantor e compositor recifense Di Melo, O Imorrível, ícone da soul music brasileira. Junto a ele, o Charlie & Os Marretas já se apresentou em São Paulo no Auditório Ibirapuera, SESC Pompéia (com participação de BNegão), nas comemorações do 1º de maio da CUT (com a participação especial do rapper Emicida), MUBE (Jam Session Verdi); Rio de Janeiro (Circo Voador – Festival MOLA e Morro do Salgueiro - Norte Comum); Brasília (Festival Satélite 061) e participou do programa Cultura Livre, apresentado por Roberta Martinelli, na TV Cultura, no qual também já tocou seu trabalho autoral. A experiência adquirida em todos esses palcos foi aplicada ao formato do show, pensado como um legítimo espetáculo minuciosamente idealizado, focado em transições que se mostram às vezes imprevistas e outras vezes sutis a partir de interlúdios e outras composições da banda para além do disco. A concepção do show como uma só unidade, à moda dos grandes mestres do funk, se traduz nas reações do público, que em muitos momentos sente a sua tensão acumulada ao presenciar o Charlie & Os Marretas segurando um groove na manga da camisa, para em seguida arrebatar novamente a platéia com mais marretadas sonoras.

A banda ainda mostra, literalmente, a cara do seu trabalho com o videoclipe de “Marretón”, a faixa mais dançante do álbum, escolhida como música de trabalho e que apresenta uma mistura pesada de funk, reggaeton e influências do afoxé. Nela, abanda leva a sério o refrão e o grande motivo que a leva a fazer seu funk autoral: o resgate dos grandes bailes, onde, quando a festa começa, todos só querem dançar. Com essa e outras combinações que compõem o disco, a banda prova que o funk não morreu, é só saber procurar.

Download: Charlie e os Marretas


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Baixa Funda no Pau da Bandeira



O Baixa Funda orgulhosamente participa deste polo multicultural, que vem contribuir para o engrandecimento desta maravilhosa Festa de Santo Antônio de Barbalha no dia do seu famigerado Pau da Bandeira.  Abaixo está o setlist para download.


Pólo São José leva multiculturalidade à
Festa de Santo Antônio em Barbalha (CE)

Programação, gratuita, inclui o ex-Cordel do Fogo Encantado Clayton Barros, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto e a pernambucana Santa Dose

Responsável por abrir os festejos juninos do Nordeste brasileiro, a Festa de Santo Antônio de Barbalha, no Ceará, ganha este ano um palco aberto para manifestações multiculturais. O Pólo São José promoverá três dias de apresentações gratuitas, no centro da Cidade.
A programação começa na noite da sexta-feira, 30. A partir das 20h, músicos locais promovem uma jam session de sanfonas no forró “de Graça”.
No sábado, 31, será o Dia das Solteironas, comandado por Socorro Luna, “a solteirona mais famosa do Brasil”. A partir das 15h, o folk-rock do pernambucano Fila abre os trabalhos para a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do Crato, uma das mais tradicionais do Brasil no gênero.
Até a noite, ainda passam pelo palco o forrozeiro Fábio Carneirinho, a dupla de pop-rock Suzane e Lucas e a banda pernambucana de forró Santa Dose, que se apresenta pela primeira vez no Ceará.
No domingo, dia oficial de abertura da Festa de Santo Antônio — com o tradicional cortejo do Pau da Bandeira — a programação abre espaço para as artes visuais, com a mostra fotográfica “Pau da Bandeira e sua história”, a partir das 8h.
Até as 14h, os DJs Lombardy e Baixa Funda esquentam o palco para a banda Bondxote, que faz a abertura para Clayton Barros. O ex-violonista da banda Cordel do Fogo Encantado apresenta show de sua carreira solo, em que mescla canções autorais do elogiado trabalho com a banda Os Sertões a covers de músicos como Zé Ramalho e Alceu Valença. O forró de Gideon do Acordeon encera a noite, com show a partir das 19h.
Sobre a festa – Realizada anualmente há mais de 100 anos, a Festa de Santo Antônio de Barbalha é uma das mais tradicionais manifestações da cultura popular do Brasil.
Primeira festa do ciclo junino do Nordeste, o evento se diferencia dos seus congêneres de Caruaru e Campina Grande, por exemplo, por manter ainda muito vivo o diálogo entras as dimensões do sagrado e do profano.
A mística do Santo Casamenteiro atrai à pequena Barbalha, no Cariri cearense, um público de cerca de 100 mil visitantes (ou o dobro da população local) para abertura oficial, com o cortejo do Pau da Bandeira.
Por 6 km, homens da cidade — os carregadores do Pau — levam no ombro um mastro em homenagem ao santo até a Igreja Matriz da cidade. Neste percurso, dita a lenda, a mulher que tocar no “Pau de Santo Antônio” terá casamento garantido no decorrer de um ano.
A Festa de Santo Antônio segue até o dia 13, quando é encerrada com uma procissão em homenagem ao padroeiro.
Sobre o pólo – O Pólo São José é uma realização da Casa São José, de Barbalha, com apoio do Banco do Nordeste (BNB), Skol, Donizete Distribuidora, IkNEt, Artely e Global.

SERVIÇO:
PÓLO SÃO JOSÉ, NA FESTA DE SANTO ANTÔNIO DE BARBALHA (CE)

Sexta-feira, 30 de maio, a partir das 20h
Forró de Graça, com Carlinhos de Deus (Barbalha) e Gideon do Forró (Brejo Santo)
Sábado, 31 de maio
Dia das Solteironas, com Fila (Recife), Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto (Crato), Fábio Carneirinho (Juazeiro do Norte), Suzane e Lucas (Barbalha) e Forró Santa Dose (Recife)
Domingo, 1º de junho
Dia do Pau da Bandeira, com DJs Lombardy e Baixa Funda, Bondxote (Cedro), Clayton Barros (Recife) e Gideon do Forró (Brejo Santo)
Mostra fotográfica “Pau da Bandeira e sua história”, a partir das 8h
Apresentação: Romão Ulisses e Michele Ferrúcio
Mais em: www.polosaojose.com.br e ww.facebook.com/polosaojose2014


Download:  Baixa Funda no Pau da Bandeira


Zé Vito - Já Carregou (2013)



Nascido em Ribeirão Preto, Zé Vito cresceu tocando guitarra nas bandas da sua cidade, e logo viu que o caminho a seguir seria bem longo e distante. Aos 19 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca desse caminho, e lá conheceu muitos músicos e artistas da cena carioca.Junto com os amigos Matheus Silva e Leandro Joaquim, começou a compor no ano de 2006 e logo montou sua primeira banda na cidade, o Sobrado 112, banda que lançou três discos e abriu as portas para Zé Vito se aprimorar e continuar na busca do seu som.Em seguida veio a Abayomy Afrobeat Orquestra, que consolidou o trabalho que vinha sendo feito e deu mais força ainda para as suas ideias. Trabalhou com os produtores Bid, Buguinha Dub, André Abujamra, dividiu palco com BNegão, Otto, Marku Ribas, Tony Allen, Leitieres Leite, Chico Cesar, Rita Beneditto, acompanhou o lendário guitarrista nigeriano Oghene Kologbo, e hoje também acompanha o compositor Jards Macalé, que viaja pelo Brasil mostrando seus 40 anos de carreira.Zé Vito lança seu primeiro disco "Já Carregou", com produção assinada pelo próprio, Bruno Giorgi e Pedro Costa. O disco traz um som que vai do funk ao blues e foi gravado no Rio no ano de 2013.

Download:  Já Carregou


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nação Zumbi - Nação Zumbi (2014)



Marcelo Pereira

Nação Zumbi é um disco de afirmação, positivo, solar, vibrante e profundo, reflexo da maturidade de uma banda que tem completo domínio sobre sua carreira. Sem dar ouvidos a disse-me-disse e sem medo de perder o timing, como se pudesse dominar o tempo – tema sempre presente em suas músicas e marcante nesse novo trabalho – Nação Zumbi voltou à estrada justamente no ano que comemora os 20 anos da estreia fonográfica com Da lama ao caos, álbum definitivo na música pop brasileira. 

“Voltamos com todo o gás”, avisa, por telefone, o vocalista Jorge du Peixe, em maratona para divulgação do disco, que começou a ser vendido na internet ontem e chega fisicamente às lojas no fim de semana. “Desde o início estava definido que o momento do lançamento seria esse, no primeiro semestre de 2014”, afirma. 

O disco-totem será lembrado nos shows, sem que para isso a banda fique refém da efeméride. “Da lama ao caos é um disco que estava a frente do seu tempo e ainda é muito atual”, diz Du Peixe. “Não estamos renegando passado. Não é isso. Já fizemos os shows dos dez anos e os 15 anos. Achamos meio over fazer agora. Tocamos sempre músicas do disco nos shows”, justifica o guitarrista Lúcio Maia.

É do caderno de anotações onde Du Peixe registra títulos, refrões, versos, rimas e ideias que saíram as letras das 11 músicas que compõe o novo disco Nação Zumbi. “Começamos elaborar o repertório em 2010, no estúdio na casa de Lúcio moldando as bases, escolhendo os temas e refrões. Depois fomos para o estúdio e fechamos o disco em 2012. De lá para cá, mexi em algumas letras, melhorei a voz em uma ou outra música”, diz Du Peixe. 

A participação da cantora Marisa Monte, por exemplo, não estava prevista. “Eu sempre admirei a voz de Marisa Monte, o jeito com que ela projeta seus trabalhos. Temos uma amizade antiga, mas o convite só foi feito no final da turnê dela. Apareceu uma oportunidade. Pupillo já tinha falado para ela que eu estava querendo mostrar uma ciranda – A melhor hora da praia. Ela falou que adorava ciranda e que amava Lia de Itamaracá, então topou na hora participar”, diz Du Peixe.

“Foi uma participação supernatural. A gente conhece Marisa desde a época que estávamos gravando Da lama ao caos e ela queria gravar com a gente”, lembra Lúcio, que gravou o disco O que você quer saber de verdade e participou de toda a turnê Verdade uma ilusão, com o baixista Alexandre Dengue e o baterista Pupillo.

“Eu vejo os discos da Nação Zumbi como um álbum de família. É uma sequência de retratos da vida. Tem alguns traços antigos, mas vê que tudo modificou com o tempo”, diz Lúcio. “Algumas letras refletem o momento difícil que Jorge passava na vida pessoal”, comenta, sem entrar em detalhes. “Cinema, quadrinhos, literatura, os amigos, as nossas experiências tudo acaba entrando nas músicas. Vamos revisitando ideias, acrescentando o que aprendemos”, explica Du Peixe.

Para o vocalista, Nação Zumbi “é um disco mais assobiável, mas é um disco para ouvir alto”. Lúcio Maia concorda: “Trabalhamos sem a pressão dos outros discos, podemos aprofundar mais na melodia e na harmonia”.

A primeira faixa lançada, Cicatriz, reflete esse momento de Du Peixe, numa melodia com a influência da surf music, do iê-iê-iê e da música brega. Um sonho fala de um sonho dentro de outro, com uma pegada romântica que aparece também em Foi de amor, na ciranda A melhor hora da praia e Novas auroras, com saudades do que nem foi e sua levada envolvente pelos timbre de Lúcio. Já Nunca te vi lembra Jorge Ben. A violência urbana está presente em canções viscerais como Bala perdida, Cuidado e Pegando fogo. “Nação Zumbi é como se fosse um complemento de Fome de tudo”, sintetiza Du Peixe. 

Download: Nação Zumbi
                             


domingo, 27 de abril de 2014

Fino Coletivo - Massagueira (2014)



O Fino Continua o Fino
Por Marcelo Janot

Massagueira é uma pequena vila de pescadores a 15 km de Maceió, um oásis natural que nos últimos anos se tornou um polo gastronômico. O tempero musical alagoano se juntou com ingredientes cariocas quando o Fino Coletivo foi formado no Rio de Janeiro, em 2005. E moldou a sonoridade da banda, recebida com elogios e prêmios em seu disco de estreia, “Fino Coletivo”, de 2007, e no seguinte, “Copacabana”, de 2010. Natural, portanto, que Adriano Siri, Alvinho Cabral, Alvinho Lancellotti, Daniel Medeiros e Rodrigo Scofield façam a ponte entre Copacabana e Massagueira em seu novo álbum.

Definir o som do Fino não é fácil, tamanha a gama de ritmos e estilos reprocessados em suas músicas. “Se tudo tivesse uma estética pra se seguir/Me explique então como iríamos crescer”, canta Siri em “Como é que a gente se ajeita”, clamando pela evolução através da simplicidade que provoca um “desconcerto musical”, enquanto escutamos o “improviso sonoro” dos efeitos de MPC de Domenico Lancellotti. E, de fato, a simplicidade se impõe cada vez mais como uma marca registrada do grupo, que optou por, pela primeira vez, gravar todas as bases ao vivo, aproveitando o entrosamento dos anos na estrada.

Trocando as bases eletrônicas pelo reforço na percussão de Zero e o peso extra dos metais de Diogo Gomes e Gilmar Ferreira, “Massagueira” segue na levada pop da banda. Os refrões cantados em coro mostram a força das canções em faixas como “Tudo Fica Lindo”, dedicada aos barrigudos e calvos que não colocam o lixo pra fora e ainda assim são chamados de “meninos bonitos” graças à mágica relativizadora do amor.

O amor também vem embalado pelo timbre de voz mais grave de Alvinho Cabral nas baladas “Nós” (em dueto com Luana Carvalho) e “De Maré”. Se o Fino Coletivo era o único grupo do mundo com dois Alvinhos em sua formação, agora é o único com dois Alvinhos que cantam. E com Siri completando o time de vocalistas/compositores, o repertório só tem a ganhar com essa diversidade. “Massagueira” abre com a energia da guitarra de Pedro Costa e Davi Moraes e dos sopros em “Is Very Good Jan” (que cita o refrão de “Nega”, do lendário primeiro disco dos Baianos e Novos Caetanos) e fecha com a viola caipira tocada por Siri que dita o ritmo de “Vou que vou”. Entre uma e outra, tem clima de gafieira na homenagem à santa doméstica que criou Daniel Medeiros, que foi pro céu antes que o disco ficasse pronto (“Iracema”) e até um afoxé que desemboca em ciranda na inspirada parceria de Alvinho com seu pai Ivor Lancellotti, “Porvir”.

Dez composições inéditas que reafirmam o lugar deles no primeiro time da nova geração da MPB que prefere o risco ao formato fácil de covers, tributos e acústicos. Enquanto o visual e os sabores lá da vila de Massagueira inspiram uma deliciosa preguiça, O Fino Coletivo trabalha com afinco se ampliando/ “sampleando” culturalmente. Por isso eles são o fino.

Março/2014


Download: Massagueira



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Juvenil Silva - Desapego (2013)



Por Hugo Montarroyos

A vida é mesmo cheia de surpresas. Quem diria que aquele moleque mod meio chato dos Canivetes (banda que fez certo barulho no underground recifense da década passada)  fosse se transformar, anos mais tarde, em um artista completo? É o que atesta este “Desapego”, estreia solo de Juvenil Silva. Como quem brinca com o tempo, sua faixa de encerramento, “De Volta para o Futuro Em Recife”, sintetiza toda a concepção estética do álbum, que tem gosto, cheiro e cor de final dos anos 60, sem, no entanto, abrir mão de ser atual. Seja no rockabilly de “Mixturado”, na manhosa “Pomba Gira Violeta” (que parece fundir Mutantes com Jorge Ben Jor) ou na instrumental “Tire o Peixe da Gaiola” ( coisa de quem ouviu muito Santana), Juvenil não perde a mão em um segundo sequer. São todas canções que dão vontade de apertar “repeat” após a execução.

A banda é extremamente afiada, e soa como se estivesse se divertindo em qualquer quintal ou garagem da vida. É psicodélico sem ser chato. E, ao mesmo tempo, despretensioso sem soar simplista. As letras são um achado, como as de “Desapego” e “Se Ela Nunca…”. O que mais impressiona é a capacidade de Juvenil de percorrer por diversos territórios da música (tropicália, blues, rock rural, Novos Baianos, Raul Seixas, Bob Dylan) sem perder a coesão. Tudo está no seu devido lugar. É daqueles álbuns difíceis de citar um destaque. Deram até um nome para este tipo de trabalho: obra. Se “Desapego” não é uma obra-prima, é um disco que deve ser entendido pelo todo, e não apenas  pelas partes.

E é assim, juntando as partes de tudo que vê, ouve e respira, que Juvenil concebe um trabalho extremamente inspirado, verdadeira delicadeza bruta de quem deixou de ser apenas um roqueiro inquieto para se tornar um artista de alto calibre. Tom Zé ficaria orgulhoso.

Download: Desapego

Spok Frevo Orquestra – Ninho de Vespa (2014)




O tradicional e secular ritmo do frevo, aclamado por multidões e patrimônio cultural do Brasil, é repaginado pela SpokFrevo Orquestra com uma pegada jazzística e tons contemporâneos, num impressionante resultado musical. Sob a batuta de Inaldo Cavalcante de Albuquerque, o maestro Spok – saxofonista, arranjador e diretor musical – a big band pernambucana de 17 músicos lança seu segundo álbum, o inédito Ninho de Vespa. O projeto foi contemplado na seleção pública do Petrobras Cultural.

O pontapé inicial da turnê  do disco acontece no Recife, em show no dia 22/11, às 21h, no Teatro Luiz Mendonça. Assim, o público de sua cidade-natal vive a experiência de ver de perto os músicos que carregam consigo o estandarte da cultura do Estado.  A entrada é franca.

O disco, Ninho de Vespa, chega ao público como uma maturação da estreia com Passo de Anjo (2004), e traduz, como o título suscita, uma complexa comunhão de gêneros musicais brasileiros não eruditos aludidos para plateias de concerto, indo além da música para fazer dançar, tão associada aos sons carnavalescos. A SFO, com seus naipes de saxofones, trombones, trompetes, além de guitarra, contrabaixo, bateria e percussão, vai ultrapassando barreiras sonoras por onde passa.

“A concepção para o álbum começou quando vários compositores espontaneamente enxergaram no trabalho da SpokFrevo Orquestra a possibilidade de ver gravado numa roupagem interessante alguns frevos que criaram, nessa nossa formação que deixa a música como protagonista e o solista em evidência. Assim, fomos agregando tantos grandes parceiros como Nelson Aires, Beto Ortis, Jovino, por exemplo”, comenta Maestro Spok.

O álbum expande as experiências sonoras e amplia regras quase imutáveis da fórmula típica do frevo, também na carta de compositores, mostrando que o ritmo não demarca apenas um reduto pernambucano, mas permeia a história da música popular brasileira. Numa pluralidade de sotaques, estão presentes:  a faixa título Ninho de Vespa, de Dori Caymmi com letra de Paulo Cesar Pinheiro;  a parceria em Tá Achando que Tá Devagar? de Hamilton de Holanda, que participa com seu inconfundível bandolim; Comichão, de Jovino dos Santos Neto; Quatro cantos, com Nelson Ayres ao piano; e Spokiando, assinada pelo violonista alagoano João Lyra (junto com Adelson Viana).

“Assim, entre tantos frevos e amigos, somos um Ninho de Vespa, como canta a canção de Dori Caymmi que dá título ao disco. Há uns 15 anos eu a escutei pela primeira vez e mudou minha forma de perceber o frevo. É com muito prazer que conseguimos inclui-la no disco e que o ídolo Dori tenha participado conosco nessa empreitada”, alegra-se Spok.

Entre as pratas-da-casa de Pernambuco, demarcam o território do frevo clássicos de Nelson Ferreira (1902/1976), na trilogia Gostosão, Gostosinho e Gostosura. O forró deu passos de frevo em Capibarizando, de Beto Hortis, um dos grandes sanfoneiros nordestinos e na belíssima 11 de abril, de Dominguinhos, com um arranjo antológico de Spok. Nas apresentações na Europa, a execução deste tema, um frevo-de-bloco que, de repente, vira frevo-de-rua, levantou plateias. Aliás, boa parte deste repertório de treze faixas foi testada e lapidada no palco.

Com esse disco, o propósito maior da SpokFrevo – arrancar o frevo do seu papel coadjuvante e levá-lo ao palco, como ator principal – vem sendo cumprido, reinventando a tradição com excelência musical e conhecimento de causa.

Download:  Ninho de Vespa