segunda-feira, 15 de junho de 2015

Orquestra Contemporânea de Olinda - Bonfim (2015)




Bomfim é um disco que poderia chamar-se Guadalupe, Amaro Branco, Bonsucesso, Maruim...Toda Olinda lá de baixo, periferia às margens do sítio histórico, descreveria bem a essência do terceiro álbum de carreira da Orquestra Contemporânea de Olinda (OCO). Neste trabalho, a banda que desde 2008 trilha um caminho crescente no cenário da música brasileira, volta confortável para casa. O bom fim de um ciclo criativo para um recomeço, com tudo de melhor que a palavra traz. Retorno ao que Olinda tem de mais rica: os moradores, os candomblés e seus afoxés, os cocos de umbigada, do Pneu e da Xambá. As loas de maracatu da Tabajara. As figuras fantásticas, como o Cariri, em um carnaval reconhecido no mundo todo. Os sete músicos pernambucanos, de performance sempre surpreendente no palco, vivem, se alimentam dessa Olinda transbordante de arte e autorreferências, ao mesmo tempo cosmopolita, transitando lado a lado com o que vem de fora.

Dessa mistura de tradições e influências, Gilú Amaral (percussão), Rapha B (bateria), Hugo Gila (baixo), Juliano Holanda (guitarra), Tiné e Maciel Salú (vocais), e ainda um dos mais expressivos saxofonistas do país, o Maestro Ivan do Espírito Santo, unem-se a um trio de metais (trompete, trombone e tuba) vindo do Grêmio Musical Henrique Dias, primeira escola profissionalizante de frevo de Olinda, em atividade ininterrupta desde 1954. Após oito anos de estrada, a Orquestra Contemporânea de Olinda nunca se sentiu tão ela, tão segura do seu lugar e da força da música que faz e carrega.

Os primeiros shows de lançamento de Bomfim já estão agendados para junho: começam no dia 18 e 20 no Rio (RJ), 19 em Niterói (RJ), 25 em Goiânia (GO) e 26 em Brasília (DF) . Além do show no Teatro Oscar Niemeyer, em Niterói, a banda ainda tem garantida pela Petrobras a circulação do espetáculo por várias capitais brasileiras, como Belém, Manaus, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Salvador, Recife, Goiânia, Cuiabá, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e São Paulo. Além do lançamento em streaming, a banda projeta a venda das principais lojas do país de Bomfim em embalagem digipack e vinil.

Conceito - Bomfim é 100% autoral, gravado no Fábrica Estúdios (PE). O disco traz 11 faixas com produção e direção musical são assinadas por Juliano Holanda e Orquestra Contemporânea de Olinda. O designer gráfico é de Sebba Cavalcante sob conceito de Aline Feitosa e fotografias de Beto Figueiroa. Os grafismos são de Maria Morena e de Zelão, um dos últimos artistas populares da 'escola' de Bajado. Zelão morreu em Olinda logo após a conclusão deste trabalho para a Orquestra Contemporânea de Olinda, em dezembro de 2014. A máscara usada pelo menino da capa é de Julião das Máscaras, terceiro da geração de uma família que mantém viva a arte das fantasias com papel marchê no bairro do Guadalupe, Olinda. O show traz cenografia de Renata Gamelo e light design de Roberto Riegert. A Quatro Cantos Produções faz a produção executiva deste terceiro disco de carreira da OCO.
Trajetória - Com o primeiro disco, homônimo, lançado em 2008 (Som Livre), a Orquestra Contemporânea de Olinda conquistou indicações ao Prêmio da Música Brasileira (2009), Grammy latino (2010), teve o show considerado um dos melhores de 2009 pelo Jornal O Globo e ganhou meia página do The New York Times pela apresentação feita no Lincoln Center (NY), em 2010, na primeira turnê pelos EUA. Em 2012, a OCO lançou o elogiado disco "Pra ficar", que teve como produtor musical o conceituado Arto Lindsay.

Em 2013, a OCO apresentou showcase na WOMEX, maior feira de música do mundo, o que garantiu a 4ª turnê internacional do grupo, que ocorreu o fim de 2013. Nos dois anos seguintes, a Orquestra circulou por todas as regiões brasileiras. Apresentaram-se em grandes festivais, como o Se Rasgum (PA) e o Psicodália (SC); levou o público para ferver em praças públicas, como na acolhedora Pirenópolis, no Centro-Oeste, e na capital federal. Fez shows históricos em Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, São Paulo e Florianópolis. Encerrou a turnê do álbum "Pra Ficar" numa emocionante apresentação com lotação máxima no Teatro Santa Isabel, no Recife.







segunda-feira, 1 de junho de 2015

Zé Manoel - Canção e Silêncio (2015)




—Zé Manoel! De onde saiu este cara?
Uns quatro anos atrás, uma amiga me passou um CD demo, de um músico seu conhecido, a quem cobriu de elogios, pediu que eu desse uma escutada. O disco repousou um bom tempo, acho que uns dois meses, num móvel perto do computador, fazendo companhia a outros que separei pra conferir. Um belo dia, olhei de lado e a vista caiu sobre o tal CD demo. Um “Zé Manoel” escrito em letras azuis. Coloquei o disco no drive do computador, e já comecei a gostar, mal soaram os primeiros acordes, acho que de Samba tem, que era feito se Edu Lobo cantasse um afro samba de Baden e Vinicius.
     
Aumentei o volume das caixas de som, e deitei no sofá pra escutar o disco. A cada canção mais eu me perguntava de onde tinha saído aquele cara. Ninguém compunha mais daquela maneira. Pelo menos ninguém da geração nascida a partir da década de 80. Canções, com começo, meio e fim, harmonias requintadas, como se fazia nos anos 60. Zé Manoel cantava acompanhando-se ao piano, em algumas faixas com uma banda. Me entusiasmei pela demo. Virou trilha dos nossos papos no Frontal, um bar na Mamede Simões (point descolado do Recife, pra quem não sabe). Devo ter convertido muita gente à música de Zé Manoel, a quem conheci, algum tempo depois, ali mesmo na dita Mamede.
   
Agora, eis-me cá, incumbido da tarefa de escrever sobre seu segundo álbum, Canção e silêncio, viabilizado pela aprovação num edital do Natura Musical, que lhe proporcionou gravar como acontecia numa época de vacas gordas para a indústria fonográfica. Deu-lhe condições, por exemplo, de convidar dois dos mais destacados produtores do país na atualidade: o gaúcho Carlos Eduardo Miranda (Produção musical) e o carioca Kassin (Produção adicional de bases). A princípio, pode parecer estranho a dupla num mesmo disco, são estilos diferentes, não trilham a mesma seara sonora. Não trilhavam, porque boas ideia convergiram para um mesmo ponto. Por mais elementos que tenham acrescentado, o que prevalece nas treze faixas do álbum é Zé Manoel, piano e voz.
   
Nesses quatro anos, Zé mudou, continua criando melodias engenhosas e belas, com ótimas letras. Porém diferentes do que fez no primeiro disco. As novas canções não arrebatam, apoderam-se de quem as escuta, lenta e inexoravelmente, como o rio São Francisco inundando terras ribeirinhas. Zé Manoel é dotado do raro dom da sutileza, e de contornar o fácil. Ao longo do disco há intervenções dos maestros Letieres Leite (BA), Mateus Alves (PE) e Fabio Negroni (RJ), que assinam arranjos de, respectivamente, cordas, madeiras e metais, mas o alicerce, a espinha dorsal é a formação instrumental clássica, de piano, baixo (Kassin), e bateria (Tutty Moreno). De participações especiais, uma deferência à Petrolina, na voz de Dona Amélia, do Samba de Véio, da Ilha do Massangano, no rio São Francisco (em Mãe d´agua) e o canto privilegiado de Isadora Melo, nova cantora pernambucana (prestem atenção neste nome) , afinadíssima, sem vibrato esbanja talento em Volta pra casa, mais uma canção marinha.
   
Nascido em Petrolina, onde são onipresentes as águas do “Velho Chico”, e morador no Recife, entrecortada de rios, e que tem o mar como ponto de confluência, Zé Manoel não tinha como não fazer das águas, doce e salgada, seu referencial. No disco anterior, a canção que norteia o repertório é o maracatu Saraivada de Felicidade, que conta a expectativa e o deslumbramento do viajante que se depara com a imensidão do oceano. Neste Canção e Silêncio, Zé Manoel varia de temas, mas o mar é quem traça o roteiro, que ele singra navegando sobre ondas, quase sempre, mansas: “E vem o mar/com seu azul e vem o mar/com sua espuma, vem o mar/com suas algas e vem o mar/com suas ondas/ vem o mar com a sua força/vem o mar com seu bramidos/ e vem o mar com seus rugidos, vem o mar... e deposita sobra a areia/cachos de estrelas marinhas (O Mar – letra de Sergio Napp e música de Ze Manoel).
   
Um disco que começa com chuva, um temporal, com Água Doce, um baião, em andamento lento, piano e voz, em tons graves, relâmpagos e trovões, então vem a calmaria num cantar suave, e inocente como uma parlenda: “Acorda vem ver a chuva/aguando o pé de laranja lima”. Que termina com Estrela Nova (letra de Dulce Quental): “Tempo, tempo/solta as velas contra o vento/deixa ir”, melodia com requintes chopinianos (Zé Manoel estudou piano dos dez aos 18 anos). “Há uma história central que serve de roteiro para toda a escuta do disco. É uma história real de um pescador da cidade de Olinda, que ao se deparar com a morte e desaparecimento no mar, do seu filho, também pescador, depois de tentativas frustradas de resgate pelos bombeiros, resolve armar a sua rede e com toda sua experiência e sabedoria de homem do mar, consegue pesca-lo”, comenta Zé Manoel.
   
A canção desta história central chama-se Sereno Mar, a letra mais longa do disco, um mini roteiro. Lembra os mares bravios de Dorival Caymmi, porém o mar de Zé Manoel não é especificamente o mar de Pernambuco, é o mar como metáfora. Sereno Mar recebe um arranjo de cordas (Letieres Leite), à Villa-Lobos, mais percussões, as variações no andamento lhe reveste de um clima cinematográfico. “É um disco de canções marítimas, em referência e reverência ao universo de Caymmi, mas também de canções ribeirinhas e urbanas”, ressalta Zé. O elemento água presente na chanson Cheio de vazio, melancólica, romântica, o personagem da letra caminha, triste, pela Rua da Aurora, margeada pelo Capíbaribe e onde, garantem, nasce o sol mais bonito no Recife. Na mesma Aurora, há uma escultura do poeta Manuel Bandeira a contemplar o Capibaribe.
   
Este disco também confirma Zé Manoel como um grande autor de canções, ou seja, de músicas que não se comprometem com tempo e lugar. Nascem para ser eternas, sem vínculos com modas, ou tendências. Uma destas é a que dá título ao álbum, Canção em Silêncio, dos versos “Vejo a cada instante você indo embora/Eu não sei pra onde/Deve ser onde a alegria/ e o seu amor se escondem”. Aqui, ali, há regionalismos, como acontece em O Mar, Nas Asas do Mangangá, ou na carioquice de Cada Vez que Digo Adeus, um samba cadenciado, meio bossa nova (como ficaria esta na voz de Elis? Me pergunto, enquanto o ouço). Mas a maioria, feito, A Maio Ambição, Habanera Hobie Cat Acalanto (com Kassin e Mavi Pugliesi) e a citada Volta pra Casa se prestariam a ter letras em qualquer idioma, há universalidade em suas melodias.
   
O disco chega ao fim, com a harmonicamente rebuscada Estrela Nova. Finda as canções, o silêncio. Recomeço a ouvi-lo, me perguntando: de onde saiu este Zé Manoel? O cara, desde a supracitada demo, e agora este novo disco, me leva a lembrar de Nelson Rodrigues sugerindo que todo mundo deveria nascer de sapatos e guarda-chuva. Zé deve ter nascido assim, pela maturidade de sua ainda curta, mas já importante obra.


José Teles *jornalista, cronista, pesquisador de música popular, e escritor




terça-feira, 19 de maio de 2015

Metá Metá - EP (2015)



Enquanto a gente prepara o terceiro álbum, taí um EP, lançado às véspera da terceira turnê europeia. Nesse EP, aproveitamos para gravar as músicas que entraram no show mas ainda não tinham sido gravadas por nós. 

 O disco abre com Atotô, do Kiko, gravado originalmente em 2007 por ele e Juçara, no álbum Padê. A segunda faixa é Me Perco Nesse Tempo, conhecida pelo registro feito pela banda brasileira pós-punk "As Mercenárias", no disco "Cadê as Armas?". O EP fecha com o samba de Douglas Germano, Sozinho, com formação acústica, como o Metá fez em seu primeiro álbum de 2011. 

O EP foi gravado no dia 02 de abril de 2015 no estúdio El Rocha, por Fernando Sanches, que também mixou e masterizou o álbum.

Juçara Marçal: voz
Kiko Dinucci: guitarra, violão, voz
Thiago França: sax tenor e barítono
Marcelo Cabral: baixo
Serginho Machado: bateria

taca-lhe pau!!!

KIKO DINUCCI



Download: Metá Metá - EP


domingo, 17 de maio de 2015

Macumbia - Carne Latina (2015)



Macumbia é uma Banda híbrida sul-americana, que mistura ritmos caribenhos com os tradicionais brasileiros.
Acreditamos na união dos povos latinos através da música. Criando obras originais ao público que só quer dançar ou ficar hipnotizado com a alegria e força de cada apresentação. com seus integrantes de diferentes culturas e nacionalidades capazes de adicionar timbres e camadas de ambientes para criar obras originais ao público que só quer dançar ou ficar hipnotizado com a sua alegria e força em cada apresentação, por esta razão, suas letras são cantadas em Espanhol, Português e Inglês, abordando questões de todos os dias de nossos povos.
A banda nasceu em 2012, na litorânea João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, famosa por sua sonoridade rica culturalmente. 
Já em 2013, lançou seu primeiro álbum "chuta que é Macumbia"; alcançando impacto significativo sobre o movimento de bandas independentes do Brasil, sendo reconhecida pelos melhores blogs de música em toda a América Latina e Europa, como o Garage Membro Blogs, Liszt MTV Brasil, Rebel Sounds, e o mais famoso do Brasil chamado Amplificador na lista dos 20 melhores álbuns brasileiros para download gratuito. 
Em julho de 2014 criou uma página na Rede Social Facebook, e conta com mais de 1700 fãs de todo o mundo.
Atualmente estamos em fase de finalização do nosso segundo álbum chamado “Carne Latina", disco que, mesmo sem ter sido lançado, já está sendo jogado e explorado na maior parte de nossas apresentações/ shows e sendo extremamente aceito pelo público. Todas as músicas foram criadas com um único propósito: fazer com que a felicidade chege aos ouvidos, infectando o coração, cintura e pés de passaportes, fronteiras e culturas distintas. Tudo isso só foi possível com a evolução da Banda neste processo de criação das músicas e surgiu a possibilidade de expandir o grupo, agregando músicos da Amazônia, Paraíba, Venezuela e Norte- Americano. E se for pra misturar, que seja musica e dança.


Download: Carne Latina


sábado, 16 de maio de 2015

Graxa - Aquele Disco Massa (2015)




O “cronista do Jiquiá” ataca novamente! O cantor e compositor Graxa lançou, nesta segunda (11), o seu segundo álbum, Aquele Disco Massa. O novo trabalho do músico está disponível, para streaming, na plataforma virtual bandcamp e traz 12 faixas onde a veia cáustica e, ao mesmo tempo, bem humorada, se faz presente em cada uma delas. 
No seu primeiro álbum, Molho (2013), Graxa fala de situações diversas do cotidiano, com boas pitadas de irreverência. Em Aquele Disco Massa, ele tem como alvo do seu discurso, em boa parte das músicas, a indústria cultural e a sua interferência na relação artista x mercado. A sonoridade do disco também ganhou quilos de robustez com relação ao anterior. Graxa, agora, se aprofunda no universo do rock. Guitarras mais pesadas compõem a sonoridade das canções, que podem ir do blues ao romantismo, mas sempre com uma “guitarra pancada”, como diz o músico.
O processo de gravação, também diferente do seu primeiro disco, trouxe mais organicidade ao som. Em Molho, as músicas ainda não contavam com uma banda-base e as baterias foram criadas em programações de computador. Dessa vez, Graxa, que agora já tem sua banda formada e ensaiada para as gravações e shows – Rama Om (guitarra) e Tiago Marditu (bateria) -, optou por trazer para o disco um som mais orgânico, com sonoridade de banda. As baterias foram gravadas no estúdio Engenho do Som, em Engenho Velho. Os demais instrumentos foram captados no estúdio Duzamigos, na Boa Vista, e também na casa do próprio Graxa. A mixagem e a masterização ficou a cargo de Adriano Leão, do Estúdio Pântano. A foto da capa foi feita por Igor Marques e o projeto gráfico do disco é do artista visual Daaniel Araújo.
Assim como no trabalho anterior, Graxa agregou os amigos músicos para colaborarem com o som de Aquele Disco Massa. Ao longo das 12 faixas, são várias as participações: Isaar, Juliano Holanda, Claudio N, Grilowski, Hugo Coutinho, Leo Vila Nova, Julio Andrade, Filipe Franco, João Tragtenberg, Deco do Trombone, Leonardo Luiz e D Mingus.
Souvenir retrô
Se em Molho, Graxa lançou uma tiragem em vinis, pelo selo Media 4 Music, com Aquele Disco Massa o músico surpreende e já está providenciando uma tiragem em fitas K7, de forma independenter Segundo ele, as fitas poderão se tornar um souvenir, mas também terão uma funcionalidade: através de um QR-Code, quem adquirir a fita poderá fazer o download do álbum completo para o smartphone.

Download: Aquele Disco Massa




quarta-feira, 13 de maio de 2015

Siba - De Baile Solto (2015)




Neste álbum, que sucede "Avante", mais roqueiro e o seu primeiro solo, o pernambucano faz uma retomada rítmica de suas origens, que remete à música de rua, de ritual e do maracatu.
"'Baile" é um olhar ao meu redor. Tem uma poética familiar, um assombro com a natureza, mas parte de um questionamento político", explica o cantor. O questionamento, segundo ele, vem da posição desprivilegiada que o Maracatu de Baque Solto ocupa no panorama cultural do país. Em fevereiro de 2014, em Nazaré da Mata, na Mata Norte de Pernambuco, conhecida como a capital estadual do maracatu, representantes de grupos que promovem festas de rua ao som do ritmo nordestino relataram que a Polícia Militar estava restringindo às 2h o término das apresentações, que tradicionalmente ocorrem até o amanhecer. Siba foi um dos artistas a se mobilizar pela causa na internet. "Ensaio de maracatu vai até o amanhecer, por costume secular. Para o maracatuzeiro, maracatu só é maracatu se amanhece o dia. Se não, vira "folclore", palavra usada na região para denominar todo tipo de apresentação artificial, show pra turista", escreveu em sua página do Facebook no ano passado. Após uma audiência ficou decidido que maracatus de baque solto e virado do município poderiam fazer seus espetáculos até as 5h, conforme dita a tradição. O contexto influenciou a produção. "Esse disco ["De Baile Solto"] não é sobre uma situação, mas parte de uma situação desta vila de Pernambuco. O governo resolveu proibir uma festa tradicional. Foi muito discutido. Parte muito disso e de leituras de coisas que eu vi", conta o músico. "Retomando a referência na musica de rua, eu precisei repensar o nosso lugar na sociedade", continua.
Por isso, entre as dez faixas do seu novo trabalho, há letras politizadas que falam de consumo em excesso, de "passar no caixa, voltar sempre e comprar mais" ("Marcha Macia"), ou sobre a desigualdade social, em que "quem tem dinheiro tem nome, quem não tem não é ninguém" ("Quem e Ninguém").
"Pra mim, no fim das contas, o disco é a pratica da poesia. A ideia de assimilar o que faz qualquer um poeta tradicional: cantador de viola, cantador de coco, cirandeiro. Poetas que tem a música como veículo", explica. "Em 'Mel Tamadindo' talvez seja mais evidente a exaltação a essa figura da voz da rua. É uma referência a uma dança em roda em que o poeta tem quatro ou cinco horas para mostrar um repertório de improviso. A faixa é uma ode a essa atividade que é tao importante, tao bonita, inspiradora".

NATÁLIA ALBERTONI

Download: De Baile Solto


domingo, 10 de maio de 2015

Tulipa Ruiz - Dancê (2015)



Se em 2010 me perguntassem o que eu levaria para uma ilha deserta, a resposta seria um disco que acabava de ser lançado sob a classificação de “pop florestal”, de uma cantora que gritava feito Tetê Spindola e que me fazia querer andar com ela pelas ruas de São Paulo. A resposta à hipotética questão ainda seria a mesma hoje. Efêmera nunca deixou de ser meu disco favorito e, quando veio Tudo Tanto (2012), eu fechei os olhos como quem espera um baque, temeroso de que Tulipa Ruiz me decepcionasse. Cruzei os dedos ao dar o play, mas É, primeira faixa do álbum, já mostrou que ela continuava sendo mesma, mesmo estando diferente. Em Efêmera, nenhuma música é de se jogar fora e o disco é um acerto do começo ao fim, enquanto Tudo Tanto, que também veio com 11 faixas, tem apenas uma questionável. (Não ruim. Questionável).

Em março do ano passado, a cantora paulista lançou o single Megalomania, que poderia ter sido a música do carnaval se Lepo Lepo não estivesse tão em alta – e se o mundo fosse mais justo. Era um anúncio do que seria Dancê, lançado neste mês, e era também uma pequena amostra de uma Tulipa ainda mais festeira. Como era de se esperar, o álbum é dançante, do tipo que você não iria deixar tocando em uma festa, mas escolheria algumas faixas para animar, intercalando com A Cor do Som (Zanzibar), Kilario (Di Melo), Haja Amor (Luiz Caldas), Chega Mais (Rita Lee) e até, quem sabe, assim só para ousar, Conga (Gretchen). Tulipa Ruiz já abre o disco com as cordas aquecidas, enquanto grita “Começou!” em Prumo. Ao ouvinte, resta dançar.

Dancê é fruto de mais uma parceria com seu irmão e produtor Gustavo Ruiz, e nasceu de uma temporada de reclusão da banda no interior de São Paulo, sem celulares e internet, o que parece ter feito com que o resultado fosse ainda mais autêntico. Os instrumentos de sopro estão mais presentes e, somados aos teclados, definem a discoteca de Tulipa no estilo dos anos 80. É, a faixa que abre Tudo Tanto, pode ter sido o prenúncio de Dancê, já que seu clima pop rock se repete agora em Jogo do Contente (não tão grudenta como as demais, essa é aquela música para aproveitar para ir ao banheiro, mas continuar dançando), Elixir e Expirou (Gal Costa, é você?). Virou é quase uma festa de família. Para a faixa foram convidados o cantor paraense Felipe Cordeiro e seu pai, o guitarrista Manoel Cordeiro, para se juntar a Tulipa, Gustavo e seu próprio pai, Luiz Chagas.


Tulipa sabe escolher suas parcerias. Logo na abertura de Efêmera, na faixa que dá nome ao disco, a cantora é acompanhada por Céu, que empresta sua voz para suspirar “vou ficar mais um pouquinho”. Em Víbora, no segundo álbum, Criolo participa como um personagem que ri e respira forte enquanto Tulipa fica encarregada de gritar uma canção-xingamento. Em Dancê, ela adapta seu trabalho ao que o convidado se sente mais confortável a fazer – e nada bem na praia de cada um deles. Aparece João Donato dando ar de bossa nova a Tafetá, de onde sai o título do disco, quando ela sussurra “danse avec vouz”. Chamar Kassin para participar de Físico, uma balada à la Frenéticas, foi uma boa ideia - se tivesse chamado Lucas Santanna, a festa ficaria ainda melhor. Quem escuta Algo Maior, a faixa que encerra Dancê, pela primeira vez e sem se informar que estão presentes ali os integrantes de Metá Metá, pode ficar confuso e se perguntando: essa é a voz de Juçara Marçal? Esse é o barítono de Thiago França? Essa é a guitarra de Kiko Dinucci? Sim, são. As vozes de Tulipa e Juçara se encaixam tão perfeitamente, que parecem ser uma só. De tão natural que a vocalista do Metá está na canção, você esquece quem é participação especial e quem é que está lançando o CD.

Além dos convidados que estiveram no disco, marcam presença silenciosa na festa de Tulipa, o gingado de Sandra de Sá, Paralamas do Sucesso e muitos outros que são a cara da música nacional dos anos 80. Proporcional é um exemplo disso. Aquela Tulipa fofinha e romântica talvez só chegue ao dancefloor na melosa Oldboy, uma faixa para os que esperam canções de amor ao estilo de Do Amor e Só sei dançar com você. Mas morre aí. Em Reclame, Tulipa mostra um senso de humor inédito em seu trabalho. Quem jamais a imaginou cantar “trato azedume e mau-olhado / quebreante, vício / trato treta de trabalho / trabalho com amarração”? Quem já está acostumado às loucuras de Rafael Castro e Tatá Aeroplano não vai estranhar essa versão party harder de Tulipa Ruiz. Quem ainda espera versos tristes, é melhor abrir uma cerveja e ir para a pista, porque Tulipa já está dançando.

DOWNLOAD: DANCÊ
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Pedro Philippe é jornalista da CARIRI Revista